sexta-feira, 6 de março de 2009

Guignard sem Amalita


“Guignard viu em uma das janelas de sobrado ouro-pretano uma menina de 14, 15 anos. Ficou encantado e comparou-a com Marília de Dirceu (personagem do livro do inconfidente mineiro, Tomás Antônio Gonzaga). Inebriado pela visão daquela adolescente comprou um lenço branco, agulha, um retrós de linha vermelha, foi para o hotel e bordou um coracão vermelho no lenço. Queria entregar para a moça. Criou um clima. Insistiu em entregar. A mulher do Samuel concordou em ir com ele até o sobrado. Eles contaram a história para o pai da garota, que deu um esporro: 'Minha filha é muito jovem e não merece um velho'. Naquela noite, Guignard tomou todas”.

Relato do fotógrafo Luiz Alfredo postado no blog do Juvenal Pereira

*Foto de Luiz Alfredo mostra Guignard pintando Ouro Preto

quarta-feira, 4 de março de 2009

eu te amo, jaca


"Não sei direito o que é uma jaca. Um rinoceronte, um elefante que virou fruta? Em todo caso, está na cara que veio de longe, do tempo em que tudo era grande e forte e não era costume temer a morte. Tem cem anos de solidão.

A jaca contém perigos. Seu peso mata, seu cheiro pós-maduro mata, jaca com leite mata. Muita jaca mata, mesmo sem leite.

É exagerada sem ser vulgar. Se fosse vulgar, ao amadurecer, se encheria de vermelhos e rosas e alaranjados, mas não. Fica firme nas cores de monja dourada. Seria exagero dizer que a jaca usa sandálias Birkenstock?

É, acho que seria.

Coleciono livros de ingleses na Índia e sempre imagino uma inglesinha chegando à sua casa nova, de chapéu de aba, muita saia e um pote de sais para o banho na bagagem. Na varanda de bambu, alguém, para agradar, botou numa gamela trançada umas jacas de luxo.

Pronto. Mais nada é preciso. A inglesa vê, sente e entende a jaca e não há que se abalar pelos campos, templos, macacos e pintas na testa para saber o que é a Índia. Está ali, sintetizada nos gomos da fruta, dando medo e uma certa alegria desconhecida e plena. Uma inglesa que viu a jaca nunca mais será a mesma.

Não se sabe se a jaca é do bem ou do mal, do dia ou da noite. Pode ser os dois. Abre-se esplendorosa, só falta cantar, para a fome do menino e pesa como uma tonelada de náusea no luto de uma mulher.

A jaca é a orquídea das frutas e está na moda. Começou a ser vista nas feiras e supermercados quando um sábio comerciante percebeu que a realidade da jaca é excessiva. Ninguém compra uma jaca. Pode ganhar uma em ilha do litoral e ter de ir nadando com ela até o barco, pode tudo, menos comprar e levar para casa uma jaca viva.

Mesmo na feira ela não fazia bonito em manhãs claras com cheiro de pastel e garapa pelo ar, sacolas, bóbi na cabeça, não, definitivamente a jaca não orna com quase nada, a jaca combina-se com muita dificuldade.

O comerciante fez o que era preciso. Domou a bicha. Arrancou sua pele de crocodilo, tirou os caroços com delicadeza para não magoar a polpa macia e carnuda, eliminou a gosma que une os gomos e congelou-a em bandejinhas de isopor.

Toda semana, uma amiga querida quando faz seu cooper deixa uma bandejinha dessas coberta de vitafilme no meu freezer.

Confesso que é um triste espetáculo, é como ter cinzeiros de presas de elefante. Vai-se o que há de mais precioso, que é a identidade da fera. Fica o souvenir.

Mas um dos defeitos ou qualidade da jaca é a persistência teimosa. Não congela nem no freezer, por ser muito doce. Fica lá fingindo-se de domada. Podemos comê-la nesse estado, é como um sorvete delicado. E ela, sempre lá no fundo, disfarçadíssima. Se tirada da geladeira e esquecida num canto da cozinha vai retomando suas características como os bichos de filmes da meia-noite. Cheiro, cor, eflúvios mensageiros. Em breve, todos andam pela casa, atarantados sem saber de onde vem aquele zoar de mato, aquele chamado de cachoeira em dia de lua.

Pois está na moda, volto a afirmar. Um cozinheiro francês faz um purê dela muito cozidinho e põe do lado do cordeiro.

Está sendo comida glaçada, como um marron.

Da China vem seca, tostada, estralando nos dentes como pururuca.

Seca e massuda, um chiclete, vem daqui mesmo.

Verde, quando ainda não afiou seus bicos de jaca, substitui a carne vermelha.

Seus caroços, depois de passados na água fervente, são assados como castanhas.

A jaca não é uma unanimidade. Ame-a ou deixe-a."

*Ai, que delícia! Não sei direito o que é uma jaca, texto de Nina Horta publicado na Folha de S. Paulo e selecionado pelo mestre Luiz Horta para o livro O Melhor da Gastronomia e do Bem Viver

Foto: Leandro Morais

domingo, 1 de março de 2009

Mulherzinha


Eu não me conformava, ela conta, rindo, eu tentei te persuadir, te perguntei dezenas de vezes se você tinha certeza de que era isso mesmo que queria, e você respondia que sim, sim, mãe, é isso. Bom, o caso não era grave. Depois de meses deixando a franja crescer, acordei com vontade de ter franja de novo. E de cortar o cabelo bem curtinho. Acho que era o dia do meu aniversário de 9 anos, comemorado na garagem da querida casa situada na rua do poeta português. O Fike, nosso cão boxer, não parava de latir e a Bia ainda era um bebê loiro gorducho que dançava e sorria toda vez que alguém cantava "digue digue dom digue dom dom dom..." (ela cresceu e virou um mulherão, mas continua não gostando de beijos e grudes).

A vida toda foi assim: nunca tive medo de cortar o cabelo. Uma vez ficou terrível, curto demais para as ondulações e provavelmente ousado demais para a tímida garota. "Está parecendo uma maneca!", disse a cabeleireira. Ganhei um apelido na escola. Cogumelo. Uma foto 3x4, que já quase joguei fora umas milhões de vezes ― mas recuo porque acho a maior graça ― comprova o estrago. A verdade é que passei por isso sem grandes traumas.

Não me lembro de ficar horas e horas no banheiro secando o cabelo ou de andar escondida pelos cantos, chorosa. Também não jurei que jamais usaria o cabelo curto de novo, já fiz isso um bocado de vezes. E ainda bem que eu cortei franjinha aquela vez porque deve ter sido a última.

Só para minhas barbies, coitadas, é que os cortes foram definitivos (mas a Bia deu uma ajeitada nelas e então formaram-se lindas famílias de blond barbies super ultra radicais).

Foto: Furtada do blog da Lolita, uma indicação da Tata

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Estes meus sonhos


Sonhei que o nonno chegou bem perto de mim e com seus olhos de jacaré esperto ficou um tempão me observando, em silêncio. Talvez uns cinco minutos, mas como disse o sujeito destemido que foi até o diplomata João Guimarães Rosa questionar por que ele não voltava para a sua Cordisburgo, cinco calados minutos entre duas pessoas é uma eternidade.

― Giova, você carrega duas luas nos olhos. Por quê? Basta uma.

Acordei e vi que hoje a lua ingressa em meu signo.

Daqui a três dias o nonno completa 90 anos ao lado de sua mulher, em Curitiba. Eu gostaria de abraçá-lo muito forte, de um modo que pudesse sentir como o amo e apoio, e pedir para que ele continue levando estes dois sóis nos olhos.

Na foto, Giuseppe e o bisneto Guilherme, no último Natal

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vení que te cuento


No segundo dia, senti aquela moleza boa de férias. Preguiça, risada solta, calor, calor, mas e daí? Não tinha brisa do mar para refrescar nem um quartinho branco com ar condicionado nem caipirosca gelada. Era o calor de um quarto apelidado de mini-ONU onde havia a doçura de uma israelense maternal cujo nome, Tsufit, significa beija-flor, e a delícia dos exagerados desatinos de uma enfermeira australiana. Era também o calor da primeira vez, a primeira vez nesta cidade que parece toda cor-de-rosa, que não é lá e não é ali, que não acolhe mas não expulsa, que tem gosto de doce de leite e, se fosse um passo, seria o ocho (e, neste ponto, dou razão ao confuso Sebastián: talvez um ocho restrictivo). Era o calor que caía das pernas peludas dos músicos da Ciudad Baigón na Milonga de Los Jueves. O sol impiedoso durante uma longa caminhada em Puerto (Miami) Madero em busca de um belo bife de chorizo. O calor do Gastón, garçom do Boliche de Roberto , o mais simpático de Buenos Aires. Ele elogiou o vestido dela, zombou o sotaque dos espanhóis, tentou falar "praia da Pipa" e ainda esqueceu de cobrar uma Quilmes providencial, tudo isso enquanto Osvaldo Peredo cantava "para qué fingir? Paciencia...La vida es así".

Voltei com poucas fotos, mas muitas molduras, uma linda blusa branca de renda, a dica de um site alucinante de tango , a certeza de que preciso mudar o plano do celular e mais animada para dançar, embora possivelmente não flamenco. Algumas confirmações: os argentinos não são calorosos como a funcionária do Museo Nacional de Belas Artes, San Telmo é mesmo meu canto favorito, a escolha da casa de câmbio faz diferença, o tomatito loco é o presente porteño mais bacana e o mundo todo se rendeu às Havaianas (não os culpo, também eu não resisti).

Y la vida es así, sigo creendo porque así dime mi corazón.

Y um obrigada imenso à amiga querida que volta com mais flores para se enfeitar.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Liberdade


As duas usavam o mesmo vestido correto, mas com estampas diferentes. Óculos escuros. Olhavam vez ou outra, de canto de olho, a garota com os cabelos bagunçados e o vestido de algodão curto, fazendo que ia levantar. A garota não queria parecer deselegante, mas não conseguia parar de admirar aquelas duas senhorinhas. O mesmo tamanho, baixas e magras, o mesmo cabelo, a mesma roupa. Acendou um cigarro, apertou Bento e Antônio e teve, de súbito, uma saudade morna da avó. Uma vontade do abraço de veludo da avó, da delicadeza com que pega em suas mãos, a chama de Jo e conta sobre uma lã argentina. O ônibus encosta e ela acomoda-se atrás das duas senhorinhas enquanto uma freira devidamente trajada senta-se ao seu lado, embora tivesse preferido não ter companhia, ela notou. O ônibus parte e a freira já dorme pesado, a cabeça escorregando nos ombros da garota. Pensa em sinalizar que de alguma forma está invadindo seu espaço mas, afinal, que raio de sentido há nisso? Teve vontade de abraçar a freira de cabelo cor de chumbo. Cheia de vontades naquela tarde em que a presença teve de se vestir de ausência.
- Está demorando para chegar, menina. Você sabe que bairro é esse?
Sabe. A freira diz baixinho onde mora.
- Desculpe, Liberdade?
- Não, Piedade.
O sol de rachar ilumina o rosto da freira, as senhoras namoram o mar e a garota segue mais firme pelo chão de pedras.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Reino do hoje


Fantasmas de negros assustados
dançam no porão do Solar do Unhão

Nachos e cerveja gelada.

Fantasmas de negras sonhadoras
dançam
no brilho dos teus olhos

A maré afoga a tragédia;

Por que Jorge Ben sabe de cor
a cantiga de Mariam
se ele nunca foi a África?

Seis horas da tarde
e os meninos da escola do Olodum
já começam a descer a ladeira.
Hora de tirar o abadá

*O título emprestei da Clara de Inês Pedrosa