terça-feira, 24 de março de 2009

Sol-lar


O amor é velho, velho, velho
Velho e menina
O amor é trilha de lençóis
E culpa, medo e maravilha

O amor é velho...

O tempo, a vida, a lida, andam
pelo chão
O amor aeroplanos
O amor zomba dos anos
O amor anda nos tangos
No rastro dos ciganos
No vão dos oceanos
O amor é poço onde se despejam
Lixos e brilhantes
Orações, sacrifícios, traições

O amor é velho
e menina

*O amor é velho-menina, de Tom Zé

Imagem: Pareja, de Alejandro Xul Solar

segunda-feira, 23 de março de 2009

fantástico


Fantástico, realmente fantástico descobrir o Kraftwerk na fazendona do Jockey (é certo que têm culpa as estrelas que se moviam no céu naquele exato momento).

Foi extasiante escutar o começo de Weird Fishes/Arpeggi observando a menina ruiva sorrindo de olhos fechados; foi doce cantar baixinho Fake Plastic Trees sentada no gramado.

Mas o som do Kraftwerk, como se diz em espanhol: muy poca madre! Demais. Aqui, The Man Machine.

Até o cantinho escolhido era perfeito – a multidão pode não ter vibrado, mas justo ali havia uma rapaziada vinda de mala e cuia de Woodstock.

E São Pedro ainda negociou com o Todo Poderoso e caiu uma chuva apressada em troca de uma noite graciosamente fria.

Foto: Tiago Queiroz

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pig


Quando eu topava o dedão do pé – porque era assim que a gente falava, ‘topei o dedããããão!” – era ela que fazia o band-eid dar a volta no dedo, com sua mãozinha fininha de macaco, e dizia: “Esquece da dor que ela passa”. É mentira. Tudo o que eu disser abaixo é mentira porque a verdade é que eu distorço muito o passado, ela diz. A verdade é que ela tem uma memória filha da puta de elefante. Qué hacer? Lembra até do seu aniversário de 1 ano, lembra tanto das coisas que acha que foi uma criança malvada (sábio chip que é naturalmente desativado de uma fase para a outra da vida). Está certa, eu distorço mesmo o passado, invento que o nome do vendedor de sonhos era Gordo, não sei a diferença entre confete e serpentina.

Mas como não se pode deixar de lembrar, assim como não se pode evitar que às vezes o nó na garganta aperta feito sandália de salto alto de casamento (só que a sandália a gente controla quando vai tirar), hoje, dia em que, há 23 anos, ela chegava aqui, eu lembrei.

É minha amiga desde a barriga.

Ela é loira e tem olhos verdes-azuis, uma calma de mãe, toma o banho mais demorado do mundo, ouvia Cartola desde nenê, costuma derrubar um pouquinho de sal na mão nos restaurantes e ama a Armênia. Nasceu no dia de S. José e dos Gênios da Humanidade. Quando fraquejo, lembro de como ela é valente e seus e-mails têm o mesmo efeito do pó da bruxa que a gente jogava em cima da outra na praia.

Desejo que todos os dias ela durma embalada pelos sinos da canção de Keren Ann, com a sensação de que está levando a vida com amor, porque o resto é firula. Agradeço. E, na posição de irmã de alma, exijo o que os só muito atrevidos e um tanto mal aprumados exigem: o Para Sempre, esse duende cor-de-rosa.

Eternamente Poly, de madeira e roxa.

quarta-feira, 18 de março de 2009

terça-feira, 17 de março de 2009

caracol marciano


Ilustração do cartunista Sam Gross para a revista New Yorker

sexta-feira, 13 de março de 2009

Wally Laloni


Morreu Wally, filho de Tonico e Mel. Encostou-se na velha poltrona da sala onde costuma se sentar Têra, descansou a cabeça no chão e morreu.

No Natal de 1993, um dos cunhados se vestiu de Papai Noel e veio do fundo do quintal trazendo um poodle com uma fita vermelha enrolada no pescoço. Os netos, extasiados, disputavam o cãozinho que esquentava de colo em colo, um bibelô natalino. Os filhos deviam estar sentindo uma felicidade cautelosa, amarela, à espera de um olhar permissivo de Têra.

Ela sorriu e meio a contragosto segurou o filhote, muda.

― Gostou, vó, gostou?

O gostar da gente às vezes é meio torto, caminha aos tropeços, segue cambaleando mas, de repente, é.

Têra, sem seu Hugo, aos poucos se acostumou com a presença do cachorro que o marido tanto queria ter. Wally aos poucos se acostumou com a presença de seu arquiinimigo Frederico.

Durante metade de sua vida foi febril, intempestivo e rude; nos últimos oito anos, uma inesperada placidez tomou conta do bichinho. Alguns dizem que tornou-se sábio com a idade e, em vez de mostrar os dentes quando Frederico o fitava provocante, aprendeu a se retirar. Há teorias de que tenha sossegado depois que a tia Maria lhe marcou o traseiro com uma chinelada impiedosa porque ele havia sumido com sua dentadura.

O fato é que em um recente Natal, já cego, escorregou do terraço do quarto e foi visto se arrastando no asfalto, tremelicando e gemendo. "O Wally caiu!", avisavam. "Mãe, é melhor levarmos o Wally para o hospital, olha o estado dele", pedia Cristina. Estava curvado, caminhando com muita dificuldade. Tinha horas em que o tremelique recomeçava e todos se aproximavam dele desejando carregá-lo no colo, mas ninguém conseguia. Wally, em algum momento de sua vida, rejeitou ferozmente um carinho e desde então só as visitas se arriscavam a tentar.

Era triste ver o cão naquele estado, mas um tanto cômico: o invisível Wally virou Jesus no Natal.

― Hoje ― disse com firmeza Frederico, e fez-se um raro silêncio na sala ― até eu estou com dó do Wally.

Têra olhou bem para ele e, com certeza de mãe, deu a sentença:

― O Wally não vai para o hospital coisa nenhuma. A dor vai passar.

Wally sobreviveu e viveu tranquilo e sereno mais três ou quatro anos, à exceção de outro acidente (as crianças empilharam as almofadas do sofá e o colocaram em cima. "Wally é o rei, Wally é o rei!". Wally caiu e teve um troço, as crianças, desesperadas, gritando junto com ele).

Quando morreu, numa quinta-feira em que Têra, prevendo o adeus, suspendeu o tradicional almoço, a neta que estava na barriga da mãe no dia em que Wally chegou à família, chorou.

A notícia correu feito brasa e todo mundo ficou sabendo que Wally se foi. Na mesma sala onde espalhou inúmeras vezes papel higiênico sujo, roubou restos de comida dos pratos e levou chutes enquanto acompanhava os almoços debaixo da mesa. Wally se foi grudado na barra da calça azul de Têra para, talvez, sentir menos medo. E só se foi porque Têra, como fez silenciosamente durante toda a vida, garantiu: está tudo bem.

quinta-feira, 12 de março de 2009

uriburu


"É uma perfeição absoluta, dir-se-ia divina, sabermos desfrutar lealmente do nosso ser"

Michel de Montaigne

Foto: Energía Eólica, de Nicolás García Uriburu