
Morreu Wally, filho de Tonico e Mel. Encostou-se na velha poltrona da sala onde costuma se sentar Têra, descansou a cabeça no chão e morreu.
No Natal de 1993, um dos cunhados se vestiu de Papai Noel e veio do fundo do quintal trazendo um poodle com uma fita vermelha enrolada no pescoço. Os netos, extasiados, disputavam o cãozinho que esquentava de colo em colo, um bibelô natalino. Os filhos deviam estar sentindo uma felicidade cautelosa, amarela, à espera de um olhar permissivo de Têra.
Ela sorriu e meio a contragosto segurou o filhote, muda.
― Gostou, vó, gostou?
O gostar da gente às vezes é meio torto, caminha aos tropeços, segue cambaleando mas, de repente, é.
Têra, sem seu Hugo, aos poucos se acostumou com a presença do cachorro que o marido tanto queria ter. Wally aos poucos se acostumou com a presença de seu arquiinimigo Frederico.
Durante metade de sua vida foi febril, intempestivo e rude; nos últimos oito anos, uma inesperada placidez tomou conta do bichinho. Alguns dizem que tornou-se sábio com a idade e, em vez de mostrar os dentes quando Frederico o fitava provocante, aprendeu a se retirar. Há teorias de que tenha sossegado depois que a tia Maria lhe marcou o traseiro com uma chinelada impiedosa porque ele havia sumido com sua dentadura.
O fato é que em um recente Natal, já cego, escorregou do terraço do quarto e foi visto se arrastando no asfalto, tremelicando e gemendo. "O Wally caiu!", avisavam. "Mãe, é melhor levarmos o Wally para o hospital, olha o estado dele", pedia Cristina. Estava curvado, caminhando com muita dificuldade. Tinha horas em que o tremelique recomeçava e todos se aproximavam dele desejando carregá-lo no colo, mas ninguém conseguia. Wally, em algum momento de sua vida, rejeitou ferozmente um carinho e desde então só as visitas se arriscavam a tentar.
Era triste ver o cão naquele estado, mas um tanto cômico: o invisível Wally virou Jesus no Natal.
― Hoje ― disse com firmeza Frederico, e fez-se um raro silêncio na sala ― até eu estou com dó do Wally.
Têra olhou bem para ele e, com certeza de mãe, deu a sentença:
― O Wally não vai para o hospital coisa nenhuma. A dor vai passar.
Wally sobreviveu e viveu tranquilo e sereno mais três ou quatro anos, à exceção de outro acidente (as crianças empilharam as almofadas do sofá e o colocaram em cima. "Wally é o rei, Wally é o rei!". Wally caiu e teve um troço, as crianças, desesperadas, gritando junto com ele).
Quando morreu, numa quinta-feira em que Têra, prevendo o adeus, suspendeu o tradicional almoço, a neta que estava na barriga da mãe no dia em que Wally chegou à família, chorou.
A notícia correu feito brasa e todo mundo ficou sabendo que Wally se foi. Na mesma sala onde espalhou inúmeras vezes papel higiênico sujo, roubou restos de comida dos pratos e levou chutes enquanto acompanhava os almoços debaixo da mesa. Wally se foi grudado na barra da calça azul de Têra para, talvez, sentir menos medo. E só se foi porque Têra, como fez silenciosamente durante toda a vida, garantiu: está tudo bem.