sexta-feira, 16 de outubro de 2009

secos e molhados


Ela cacheava o cabelo na frente do espelho com a pomada, as mãos melecadas, cheiro de shampoo barato. Ouviu "menina, você acha que eu tô seca?", virou-se e era para ela. Como assim, seca, moça? Até então a palavra seca era aplicada às barrigas fabricadas das saradas que andam pelada no vestiário do clube. "A senhora não é seca, a senhora está ótima", respondeu, rápida como tarte tatin escorregando da fôrma, e se surpreendeu com o tom da própria voz. "É que as meninas disseram que eu tô seca. Eu como pouco, uma conchinha só de arroz, outra de feijão. Aí me deu um enjôo esses dias, elas perguntaram se eu como à noite, eu não janto. Eu sou assim mesmo, magrinha, mas você acha que eu tô seca?". De jeito nenhum. "Mas olha, uma coisa é certa: é bom se alimentar à noite, viu? Não faz bem deixar de comer", a garota falou, sentindo os sapatos de veludo vermelho agarrando o chão. "Se bem que às vezes", continuou, "também pode ser falta de blush". Pintaram o rosto de peach twist. Foi então que começou a tocar Beatles (tá vindo de onde esse som, da privada?) e a girafa grafitada na porta saiu do box e esticou o pescoço, e todo mundo entendeu o mistério dos buracos no teto do banheiro. Agradecida com a resposta, despediu-se cantando alguma música religiosa, só podia ser, tinha a palavra Deus no meio. E foi gozado que agora é que a menina se tocou - mas que tombo da memória! -, a mulher estava ao lado dela cantando a mesma música o tempo todo, desde o instante em que abriu o frasco de pomada.

Ilustra: Laura Laine

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

borboleta da rosa


"Uma borboleta vistosa veio voando... - Ara, viva, maria-boa-sorte! - o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz".

*essa veio da Rosa Haruco Tane por e-mail, acabei de rasgar a caixa, fresquinha. O trecho está em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. É o segundo e-mail bonito que recebo logo cedo essa semana, e por isso me sinto profundamente agradecida (e ele ainda assopra, sem saber de nada: rosa, morena rosa).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

emblema rubro


"Há buracos nas minhas roupas, há buracos no meu chapéu. Mas não há buracos em mim ― a não ser aqueles já esperados", soldado de A Glória de Um Covarde (1951), filme de John Huston.

Na foto, está segurando a bandeira dos EUA o jovem Henry Fleming (Audie Murphy). Idolatrado pela tropa após uma batalha, confessa ao colega ter fugido como um coelho assustado no primeiro embate. "Eu também, assim como metade dos homens", surpreende-o o colega. "Rapaz, esse negócio de confessar faz um bem. Digo, para a alma", conclui Fleming.

A Glória de Um Covarde, cujos bastidores está no livro Filme, de Lillian Ross (considerado base do new journalism), é inspirado na obra Emblema Rubro da Coragem, de Stephen Crane.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

que delícia

Começa a aula de flamenco com 15 minutos de atraso. Mais uma japonesa na classe, magrinha, bermuda da Puma, pé menor que 35 (dá para ver que os sapatos sobram no calcanhar). Ela não conhece Mieko, caiu na escola por acaso, e as duas começam a falar japonês e dão risadas como a da mulher do Daigo de A Partida (o melhor filme do ano até agora). A professora, um mulherão pernudo que pisa forte no chão com sapatos vermelhos, veste a saia, prende o cabelo dourado com um elástico de flor e liga o som. É a voz rouca de um espanhol que, depois de algumas aulas, já começa a soar familiar, um parente ainda distante.
Então uma das alunas corta o silêncio, interrompendo o alongamento de pescoço.
― Eu queria levar esse homem para casa.
E a professora responde:
― Só você, Antonia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

samuca


Estava usando bigode, coisa de um mês pra cá. Cochilava no banco do carro com invejável imobilidade, como um passarinho deve dormir em Bonito. Cutuquei-o sem cerimônia, acorda, Samuca, acorda. Acordou e me abraçou forte, com sorriso de criança. Nas horas em que seu mau-humor me irritava muito e eu tinha vontade de ser malcriada, eu lembrava do sorriso de criança e pensava nem que quisesse, nem que quisesse podia ser má pessoa. Afinal de contas, ele é um Samuca, Samucas sempre são pessoas do mais fino trato. "Tá de bigode, hein?". Ontem Samuca me contou frustrado que, há semanas, assim que me deixou em casa e virou a esquina, sentiu alguma coisa espatifar no porta-malas. Era a cachaça que compramos em Guararema. Nós passamos quase 24 horas por dia durante 10 dias dentro do mesmo carro, desviando de bambuzal atrás de bambuzal. "Tão longe para voltar tudo amanhã? Não faz sentido", ele argumentava. Eu dizia não mesmo, não faz, mas a gente vai. Acho que ele me matou algumas vezes. Na última noite, nos demos ao luxo de comer quanto quiséssemos num bar carioca muito ruim, éramos um trio. Pedimos torresmo, tava queimado. Samuca olhou feio para o arroz piamontese e quando levou a primeira garfada de carne à boca, chiou: "Esse molho madeira...não podia ter vindo sem?". Ficamos os três rindo, não é possível que ele tá reclamando, todos os mal entendidos pulverizados, derretendo mais que chope vagabundo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

perto do osso a carne é mais gostosa


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos a fora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

*poema de Paulo Leminski, que ganhou uma linda mostra no Itaú Cultural, Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, organizada pelo Pinduca. De hoje até 8/11