terça-feira, 16 de março de 2010

respiro



Sinto saudade de escrever, mas no hay tiempo. Vou contar rápido então uma coisa gostosa. Lá em Baturité, vizinha de Guaramiranga, cidade conhecida como a Suíça do Ceará (sim, lá faz frio e eu usei no pescoço uma canga na falta de um cachecol, anteontem). Pois em Baturité há um mosteiro construído pelos jesuítas em 1922. Recebem religiosos o ano todo, sobrevivem com as doações de R$ 1 de cada visitante, têm uma fonte com peixes egípcios trazidos por algum poderoso no passado. Dizem que é no mosteiro que está a primeira piscina olímpica do Ceará. No último andar tem essa janela azul, como eu amo esse azul, e fica sempre fechada de propósito - é para você abrir e sentir o vento que tem a força de todo o mar do Nordeste. Depois feche, obrigada (e, de preferência, deixe aberta).

segunda-feira, 8 de março de 2010

ou eu sou louca?


Pareciam gringas, são alemãs, decretei. Mas aí, entre um e outro gole de café, eu ouvia umas exclamações em português. “Assim não dá mesmo”; “Conversa com ela”. Mudei de ideia, são brasileiras, nunca tinha reparado que quando se fala português com pressa fica parecendo alemão. Que língua libidinosa, que nada. Dou mais um gole no café. Não, espera, não é possível, isso não é português. Encaro a mais falante, loira, cabelos cacheados curtos. Ela me encara de volta. Pago a conta encafifada, que coisa foi essa? Pergunto baixinho para a mulher do caixa: “Aquelas mulheres...elas estão misturando português e alemão, ou eu sou louca?”. Porque acho tudo perfeitamente possível, posso andar por aí e pisar sem querer em Gregor Samsa. “Estão, sim, quando chegaram fizeram o pedido em português e se viraram e na mesma hora começaram a falar alemão”, responde a mulher. Abro a porta me sentindo a Princess Lea com meu cinto brega novo, e outra funcionária me aborda. “Desculpe a indiscrição, mas tem uma etiqueta no seu vestido”. Senti uma espécie de alívio, livre do aflitivo e dramático contato com a normalidade.

quinta-feira, 4 de março de 2010

bregança paulista


Certos momentos ficam grudados na gente como cola Super Bonder. O segurança já não me impede mais e entro na lanchonete totalmente zureta, peço uma porção de linguiça e é gigante e um homem gordinho briaco ao lado não para de me olhar e fala alto com os amigos: "Será que ela vai aguentar?". Fiquei duas horas sentada na sarjeta em frente ao Estádio do Bragantino esperando a Lanchonete do Rosário abrir. "Ô, garçom, você não trouxe pão para a menina...". Eu olho de soslaio e abro um sorrisinho, agradeço. Ele se incomoda porque estou em pé. "Garçom, arruma um banco para ela!". Sento. Não, gordinho, você não vai conseguir me irritar, eu tô com a bunda quadrada e com mais sono que urso um dia antes de hibernar. "Servido, amigo?", ofereço. Diz que não com a cabeça, os compadres dão risada, depois acaba aceitando. Linguiça boa pra cacete, sabia que tava de cobiça pro meu lado. Deixo mais da metade da porção no balcão e vou embora para a Serrinha. Dois pastores alemães me aguardam na porta do quarto, e eu tenho medo do homem do quadro renascentista em cima da minha cama. Mas amanhã vai ter pão de queijo quentinho no café da manhã.

terça-feira, 2 de março de 2010

deliciosas esquisitices


Ele, por exemplo. É preciso mais de uma mão para concluir a lista de coisas que não gosta de comer. Listazinha nada óbvia, esqueça jiló & similares, jiló ele adora. Muitas vezes ela arregalou os olhos e tapou a boca com as mãos. "Inacreditável!". Não lhe revelou seus compassos com a rapidez de um salto em um trampolim acrobático. A lista foi sendo desanuviada pouco a pouco, em mergulhos, camisolinha branca pendurada no varal (ele comeu muito chèvre até confessar que não encarava o queijo, ó mundo cremoso do amor!).

Ilustra: Shira Shela, dica do blog 100 mililitros.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

meu nonno


“Eu quero ir, você marca para mim?”, me pediu. O nonno quer ir à astróloga que fez o mapa astral de meu pai. Não foi exatamente um espanto vindo de um homem com admirável capacidade de tirar as barbas de molho. Nascido em um vilarejo de Polignano al Mare, no salto da bota, filho de pais nada abastados, casou-se com uma gaúcha de nariz fino e olhos claros do Vêneto. Montou negócio próprio no Brás com os irmãos, um armazém com alho e pipoca. Foi parar no Morumbi em uma casa grande, cheia de tatus-bola no quintal. De manhã, costumava sintonizar o rádio em uma estação com músicas instrumentais enquanto fazia sua caminhada pelo jardim. Nonno nunca precisou de um castelo, fundou seus próprios reinos. Macias polpetas antes do almoço, massa no almoço, sem queijo (sim, nonno é um italiano que não gosta de queijos). É um defensor do amor. Amou a mesma mulher por 60 anos e jamais a criticou. Quando ela morreu, ele se apaixonou de novo e casou-se. Aos 85 anos. Com a irmã mais nova da nonna. Mudou-se para Curitiba, onde ela vivia. Deixou a casa do Morumbi sem chorumelas. Nunca vi o nonno se lamentar. Nem com as intrigas familiares, nem com a ausência de alguns queridos. Quando vinha para São Paulo, contava com olhos fulgentes como a cidade tinha bons restaurantes, as pernocas sempre cruzadas e o familiar par de óculos quadrados. Talvez a melhor de suas qualidades seja a nobreza de não fazer julgamentos. Nonno, mudei de emprego. Nonno, mudei de namorado. Ele sorri como se acariciasse seu cabelo e acha tudo ótimo. Meu avô tem uma presença tão forte que não consigo me considerar uma italiana grã-fina do Vêneto nem uma portuguesa intelectual de Cintra. Eu vim de um beco de Polignano al Mare. Na última semana, comentei com ele que deveria provar takoyaki, bolinho de polvo que só um velho japonês da Liberdade sabe fazer. Mudamos de assunto e, antes que eu beijasse sua testa sardenta, me fez um pedido, o segundo até hoje. “Djôva, eu queria experimentar esse bolinho. Você traz para mim, de surpresa?”. Amanhã o nonno completa 91 anos, e já encomendei os bolinhos (mas não conte a ele).

Foto: Barche di Pescatori de Polignano al Mare, do flickr de Riccio.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

pássaro azul


há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

*Pássaro Azul, de Charles Bukowski

Foto veio de um ensaio duca do Hélvio Romero, dica de @paulinigor. Só janelas paulistanas. Aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

segunda chance

Deu meia-noite. É meu aniversário. Relógio voltou para 11 horas. Ainda não é meu aniversário. Por distração, comemorei duas vezes, e me veio a Clarice. Que a vida seja uma série de distrações, uma atrás da outra, empilhadas como as bolachas Bono (só que sem a obsessão por um pacote ordenado. e sabor doce de leite, de preferência).