terça-feira, 27 de julho de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

nossa floresta sacrílega


eu caminho seguindo
o sol
sonhando saídas definitivas da
cidade-sucata

isto é possível
num dia de
visceral beleza
quando o vento
feiticeiro
tocar o navio pirata
da alma
a quilômetros de alegria


(Roberto Piva)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

dos milagres


Sentado em cima de uma mesa de jaqueira em São Miguel dos Milagres, Alagoas, sorria tanto, tanto (chegava a rir, mas sem barulho. uma alegria muda). Os cabelos cacheados jogados de um lado só, totalmente sem vergonha. Olhava fixamente para a câmera com olhos, boca, nariz e queixo. "Como ela é linda!", eu repetia, e clicava. Com calma e doçura, sem tirar o sorriso do rosto, lá pelo décimo clique, falou: "Eu sou menino". Ei, menino, que belo ensinamento de como é que se faz.

terça-feira, 20 de julho de 2010

o mary


Até nos momentos felizes - quando consegue fisgar o vizinho grego Poulopoulos, quando finaliza um projeto na universidade e se destaca no Olimpo dos óculos tortos - Mary não parece feliz. É como se ela tivesse passado a vida toda em frente ao espelho passando fio dental. Max sua igual lata de cerveja em Jericoacoara ao ser indagado pela garotinha sobre o que é o amor. E, para compensar, come compulsivamente pães recheados de barras de chocolate (isso porque nunca provou pão francês mergulhado em leite condensado). Lá pelas tantas, no cinema, ele virou e disse: “reparou que praticamente tudo é branco e preto, menos o pompom vermelho que ela deu pra ele?”. Como eu pude não reparar? Pelo trailer, eu imaginava que o Max era um escritor famoso e que a Mary resolveu escrever pra ele porque gostava de seus livros, essas histórias hollywoodianas que a gente cria na própria cabeça. Quando Max começou a listar suas ocupações, eu pensei é agora, é agora que ele vai dizer “foi então que aconteceu uma coisa fantástica e escrevi um livro”. Nada. Pior é que acontece mesmo uma coisa fantástica na vida de Max – daquelas Top Five no trenzinho de nossas listas de Natal. O que assusta em Max & Mary não é a excentricidade dos personagens, é a assustadora familiaridade.
Eu não tinha reparado no pompom vermelho. Que merda é essa, a gente se acostuma a uma vida em preto e branco?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

telefone sem fio


"Cecilia: repasse para a Ju.
Marcela: repasse para a Paulinha.
Lu: repasse para a Flavinha.
Mariana, para tia Heloisa."

terça-feira, 13 de julho de 2010

sobre a copa


Eu ficava emocionada em dia de jogo quando saía do meu hotel em Copacabana e via os velhinhos de Lacoste amarela e as velhinhas com bolsa amarela, todo mundo, inclusive a calçada e os postes de luz, vestido de Brasil. Mas vendo o time jogar aquele futebol truncado e feio e nervoso, pensava: que se dane o título, nós não merecemos. A racionalidade derretia quando o povo de repente pulava junto em uma sucaria qualquer de Ipanema, gritando Gol. Ou quando pediam para tirar da Globo e o garçom negava: “Mas é o Galvão!”. Quando a velhinha de bengala que avisou o garçom “às 4 quero meu café na mesa”, disse: “Não precisa ganhar de muito, só 1 já tá bom”. Então nessa copa, vista mais lá do que aqui, vivi esse dilema ordinário de ponderar e delirar ao mesmo tempo. Um dia, ele me disse despretensiosamente, assim, cortando uma fatia de bolo, que a seleção apresentou uma campanha medíocre na Copa de 94. Fiquei pasma. Não! A Copa de 94 foi a mais linda de todas, foi a vitória mais brilhante! Tínhamos Bebeto, Romário, Dunga, Taffarel. Tinha a promoção das tampinhas das garrafas de vidro de Coca-cola, que vinham com nomes de três países – quem pegasse a tampinha com os finalistas ganhava sei lá o que, e a gente bebia refrigerante como camelo bebe água. Eram os álbuns com as figurinhas mal coladas tortas, ainda usávamos cola Pritt ou Tenaz. No way, baby, a Copa de 94 foi minha copa do choro! Certo, assumo silenciosamente que é bem provável que tenha sido de fato uma vitória meia boca, mas que valeu a pena, só por deixar milhões de crianças enlouquecidas. Se o Brasil ganhar, pensei, ouvindo meus priminhos gritando do outro lado do telefone, para eles o time de 2010 vai ser sempre uma porcelana Limoges. E tem também esses garotos jogando bola na praia do Vidigal, numa manhã de julho. Não são lindos, esses garotos?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O relojoeiro do Leblon


Antes de mais nada, meio encolhida, preciso dizer: não me lembro de seu nome.
Só sei que há 40 anos conserta relógios numa loja na rua General Artigas, no Leblon, quase esquina com a avenida Delfim Moreira. Ou seja: um pedaço cascudo do Rio de Janeiro (ainda mais depois que as Menininhas do Leblon roubaram a atenção da Garota de Ipanema).
Alguma coisa me chama e atravesso a rua para olhar a vitrine.
Entre velhos Rolex, Casios vintage e Nikes Huru lá está São João Batista. Nos fundos de uma lata de coca-cola, cercado de bandeirinhas coloridas e protegido por uma fogueira. Colada nas costas da lata, sua oração. Não dá tempo de perguntar de quem é aquilo, ele já chega e diz: “Gostou? Eu que fiz. Tem outros aqui na loja, vem”, aponta a prateleira.
Fico tonta de alegria, aqueles altarzinhos lado a lado, um mais lindo que o outro. “Olha esse, é o Cristo Redentor, e esse, Iemanjá”. Tem São Bento? É o meu santo, e nunca tem São Bento. Tinha.
Católico, um dia abriu uma lata de coca-cola com um estilete e botou a imagem de um santo dentro. O pessoal pirou, faz um pra mim? Fez, mas achou que podia fazer melhor: comprou cola quente e tinta.
São João vai com fogueira, Nossa Senhora, com flores, Santo Antônio leva aliança.
Quem quiser enfeita a estante, quem quiser usa a tampa da latinha e pendura o altar na parede.
“A Regina Casé uma vez veio e levou uns 10. Mas eu não gosto muito quando uma pessoa sai com um monte. Cada um é cada um, sabe? Eu me apego”.
Separo São João e São Bento, não tenho cacife, mas não dá. Nem pergunto se tem Santa Teresinha, céus, minha avó adoraria um desses.
Vou procurar um banco, o pagamento é em cash - os santos não fazem parte do acervo da loja, o dono cedeu um espaço ao funcionário porque não é um burocrata.
Pego o troco.
Chega um cliente e ele começa a trabalhar. Fico parada, ouvindo as marteladas precisas encaixarem os pinos no relógio e olhando os santos, hipnotizada como uma formiga diante de um pote de açúcar. “Ele é relojoeiro”, diz o chefe, meus olhos presos no homem. “Não existe mais ninguém que faça o que ele faz, do jeito que ele faz”.