terça-feira, 21 de setembro de 2010

o lobo


Estávamos no meio do mato, sentados de perna-de-índio em uma tenda. Fazia muito calor porque dentro dela havia um buraco e dentro desse buraco eram colocadas pedras quentes. Retiradas incandescentes da fogueira em frente à tenda, brilhantes como olharzinho de criança. Uma mulher derramava um balde cheio de água com ervas por cima das pedras, então dentro da tenda formava-se uma espécie de sauna muito cheirosa. Por que aquelas pessoas estavam presas ali? Todas cantavam muito alto e pareciam felizes, embora às vezes chorassem. Foi quando de repente se fez um silêncio digno da cor branca e, estando a porta da tenda semi-aberta, se ouviu um garotinho lá fora dizendo justamente o que a mulher precisava ouvir: "Eu não tenho medo do lobo, sabe por quê? Porque ele é desse tamaninho aqui, ó". O lobo, menina morena da pele preta, é do tamanho que a gente quiser.

Foto: mademoiselle Piuí

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

encosta aqui


Foto: Tavi Williams, do ótimo blog Style Rookie, uma dica de @Luiz_Horta

terça-feira, 14 de setembro de 2010

és-não-és


Quando você mete os dedos na bola pesada, que segue firme pela pista de boliche em direção aos pinos, mas ela muda de curso e corre pela lateral esquerda. Quando o pára-quedas abre e incha no meio do parque, só que falta vento e ele murcha. Quando a criança pedala pela primeira vez a bicicleta sem rodinha e parece que nunca mais vai cair, mas cai. Quando o bolo está no ponto, cheiroso e lindo, e de repente queima. Quando depois de duas ou três apontadas o lápis está afiado, e a ponta quebra na derradeira rodadinha. Quando a porta do metrô fecha no último segundo, quando não tem mais manteiga e ainda tem pão quente e tem fome, quando a vendedora acha um tamanco de madeira 37, mas não é preto, é creme.
Vinicius e Toquinho deveriam cantar assim: "O futuro do pretérito é uma astronave que tentamos pilotar...".

Foto: Nilton Fukuda

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

comer, rezar e amar


Não cresci comendo comida feita pelas mãos de pai e de mãe. Nunca vi minha mãe tirar um bolo do forno ou meu pai picar uma cebola. Mas isso não me impediu de colecionar inúmeras memórias amorosas à mesa: a banana com açúcar que o meu pai preparava pra gente depois do almoço, a limonada fresca, o pão francês com peito de peru que minha mãe trazia da padaria para o lanche da tarde nos fins de semana. Um dia, quando trabalhava no caderno de gastronomia de um jornal, entrei numa crise dessas de 3 minutos por não ter pais cozinheiros, mas minha prima disse: “Você tá de brincadeira? Vocês todos lá na sua casa têm uma relação muito forte com comida”. É verdade. Aí ele apareceu, ele que vem de uma família de cozinheiros espetaculares, mulheres que transformam rabada no prato mais chique do mundo, homens que grelham cordeiro em uma churrasqueira improvisada deixando a carne mais crocante e mais suculenta que muitos bistrôs de São Paulo. Ele não congela nem requenta coisa alguma, tem um paladar tão apurado que é capaz de adivinhar quanto tempo uma carne ficou congelada na primeira garfada. Sabe escolher berinjelas. Outro dia, eu trouxe uma jaca mole do supermercado e, depois que eu chupei a fruta (pela qual tenho adoração), ele cozinhou as sementes – ficam macias como batatas, mas amendoadas como castanhas portuguesas. Comemos sem acompanhamentos, de pé, na cozinha. Ele faz uma simples ervilha torta frita parecer um diabo de um prato sofisticado. Cresceu sem saber o que era uma lasanha pré-pronta, tomando sopa pelando de broto de abóbora feita com maestria pela mãe. Viciou em comida fresca. Por isso, lá em casa, no congelador só entra sorvete. Vejo-o virando os camarões na frigideira, abrindo as janelas para o cheiro de manteiga e alho não se espalhar pela casa, monitorando as panelas todas, e lembro de esguelha de uma frase da M.F.K. Fisher sobre restaurantes, em Um Alfabeto para Gourmets. Me marcou justamente porque, na época, me soou estranha. Algo a respeito do verdadeiro sofrimento que era ter de comer fora de casa.

escudo


Quando um gesto indelicado me incomoda, eu faço um esforço para pensar em quantas pessoas e em quantas coisas delicadas existem por aí. Que há muito mais gente legal e coisa legal do que gente chata e coisa chata. A borracha em forma de coração que cobre o ralo do banheiro, os ovos fritos com pimenta do reino de manhã, o chão da Marginal Pinheiros manchado de amoras, o livro que ensina crianças a fazer origamis, a moça do banheiro que sempre fala bom dia e às vezes vem com flores no cabelo, a orquídea da tia e a alegria da menina dele ao reconhecer a orquídea, a borboleta dourada que se deslocou sozinha da tiara e virou pingente de colar, a cantora Stacey Kent rindo de si mesma no palco, o e-mail feliz da irmã contando que vai passear na região dos lagos chilenos. Para cada indelicadeza existem 50 mil delicadezas. É o meu míssil Exocet.

Foto: Vivi Favery

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Coisas bregas que eu adoro (e faço)


Meias coloridas grossas para fora da botina
(e botina, a legítima de Tatuí)
Tamancos com salto de madeira
Soltar bolhas de sabão em casa para atrair energias positivas
Voz de nenê com o namorado
Fumar com as unhas pintadas de vermelho
Me emocionar com taxistas.
Escrever que alguma coisa é a versão 2.0 de outra
Dizer "caminhei de mãos dadas"
Falar com bebês desconhecidos na padaria
Espalhar que o bolo da vovó é o melhor do mundo
Papel de parede florido.
Boina vermelha de pintor
Novela das oito
(e CDs de novelas das oito)
Show de golfinhos
Usar várias bijouxs douradas juntas
Achar que dançar com saia rodada resolve todos os problemas
Chorar vendo Simplesmente Amor


*Essa lista teve contribuições de Jatobá Madeira (que assiste mesa-redonda de futebol e gosta de filmes protagonizados por cachorros); Giu Vallone (que envia letras de músicas via sms e ocasionalmente ouve Lenine); Ana Elisa Faria (que vê Chaves e, quando precisa, dorme abraçada com seu Snoopy de estimação); e Rach Sterman (que segue o Fabrício Carpinejar no Twitter).

Foto: green_submarine, via flickr

terça-feira, 24 de agosto de 2010

viagens em cliques


Seu Pedro do Balaio, em Guaramiranga, a Campos do Jordão do Ceará

Praia do Mirante da Sereia, em Maceió

A artesã d. Irineia, herdeira de Zumbi, com o anjo de barro que eu trouxe para São Paulo. No Muquém, povoado de União dos Palmares

Neta de d. Irineia fazendo arte

Pirata faz a travessia de bugues da praia de Mangue Seco até o povoado de Tatajuba, no Ceará, em balsas improvisadas

Bizarrice da natureza vira ponto turístico. Coqueiro com o nome auto-explicativo de saca-rolhas

Vai uma mandioca aí? Vendedora de raízes, frutas e verduras em Maragogi, Alagoas

Homem pescando em mangue, em São Miguel dos Milagres, Alagoas

A árvore preguiçosa (deitou a copa na areia e assim ficou), em Jericoacoara, no Ceará

Aquário natural na praia da Ponta do Gamela, na Barra de Santo Antônio, em Alagoas

As noites coloridas de Jericoacoara, no Ceará

Uma mulher que encontrei pelo caminho em São Miguel dos Milagres. Tinha ido buscar as madeiras para fazer, "como o pessoal chama? artesanato".

Gatinha de São Miguel dos Milagres, que por pouco não trouxe comigo para São Paulo

Bolinha, cachorro que bateu na porta do meu quarto no meio da noite

Porco causa frisson na praia da Ilha da Croa, em Alagoas

Tronco que enfeita a Vila Palateia, comunidade na Barra de São Miguel, em Alagoas, que vive 100% da criação de ostras

Passeio de canoa na Vila Palateia

Mulher trabalhando nas mesas de ostras

Mulher grávida observa manguezal, na Vila Palateia

Fresta de luz na estrada de terra que liga as cidades de Monte Verde e Gonçalves, em Minas Gerais