quinta-feira, 14 de outubro de 2010

crônica de hoje


A linguagem oculta na cozinha

Por Nina Horta, na Folha de S. Paulo

Algumas coisas parecem tão fáceis e na verdade não são. Às vezes demoram uma vida para serem assimiladas. Comecei a me interessar por cozinha desde sempre. Primeiro para comer, depois para agradar e um dia encontrei um livro só de receitas e adotei o infeliz como guia. Era o Fanny Farmer, um clássico americano que já passou por tantas transformações que não conheço mais o monstro.
Era só sentar, ler e fazer um cardápio baseado nele. Escrever todos os ingredientes necessários e ir para o mercado. Lá, procurava coisa por coisa que o livro pedira, descia e subia escadas e ia cortando a listinha com Bic, frustrada quando alguma coisa não estava na época ou simplesmente não existia. Fanny Farmer era americana e eu, brasileira da gema, pequeno detalhe.
Atentem, 20 anos depois desse processo, 20 anos depois (experiências, viagens, lembranças, muitos livros), entrei no mercado e tive um insight. Consegui enxergar não a couve sozinha ou o camarão fresco, ou a batata do purê do dia, o A o B o C, mas a soma deles todos. Foi um instante raro. A mesma de quando consegui ler no jornal Casa Gato.
Rasguei a lista da Fannie Farmer. Descobri naquela hora, pasmem, depois de 20 anos de mercado quase diário, que só é possível entender os ingredientes e misturá-los quando fazem parte de um todo.
Uma só laranja não faz verão. É somente uma laranja mais ou menos burra. Agora, se no nosso repertório existe a calda de açúcar ela pode virar um doce e, perto do paio, é refrescante. Muito óbvio ou muito complicado?
Só conseguimos reunir as peças da comida em alguma coisa bem aceitável quando se aprende as técnicas básicas, quando se lê muito (melhor quando se vive muito), quando se tem olho vivo, língua curiosa, quando o erro é o melhor condutor, quando se quebra a cabeça misturando os ingredientes com muita obediência e outras vezes com liberdade total.

Quem se lembra do primeiro semestre da faculdade, quando o sociologês, o filosofês, o antropologês eram um obstáculo desolador, quase impossível de ser resolvido? E dois anos depois, deus-que-nos-perdoe dos jargões tão feios, falávamos felizes em epistemologia, doxa, duração, tergiversar, como se fosse a lista do supermercado?
Ou uma língua como o alemão que se apresenta como muralha e vai-se ver é a mais fácil de todas?
A linguagem oculta da cozinha também pode ser um obstáculo. É preciso estudá-la como estudamos qualquer outra matéria. Claro que alguns terão mais facilidade do que outros, alguns vão parecer que nasceram sabendo, alguns vão desistir e mudar de rumo, tudo igualzinho às outras disciplinas do vestibular. Estudo, experiência, memória, imaginação, abertura, prazer, ritmo, astúcia e a visão da comida como uma língua a se aprender e que devemos interpretar segundo nossas possibilidades e vivências.
E não é maravilhoso que não exista um cozinhês? Grande vantagem. Um bom feijão grosso todo mundo entende. Quase todo mundo.

Foto: Bianca Tucci

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

blue screen


Os comandos pararam de funcionar e a tela subitamente ficou azul, exibindo uma mensagem: “Um problema foi detectado”. É só reiniciar, pensei. Reiniciei e não deu certo. É só desligar, pensei. Desliguei e surgiu a mesma mensagem. O colega ao lado olhou de soslaio e suspirou: “Ai, a tela azul...”. O cabeludo sorridente lá do fundo explicou melhor: “É o que os americanos chamam de The Blue Screen of Death”. Joguei no Google e achei um verbete na Wikipédia confirmando: meu computador morreu. Em outros tempos ficaria desesperada, ou meio chateada, mas dessa vez só liguei no suporte e abri um chamado. E mudei de mesa. Lembrei da frase da Talita: “Se for pra morrer, que a morte seja gostosa, do jeito que der pra ser”. A TV mostra a perseguição surreal a um motorista na zona oeste de São Paulo, e eu penso que essa lua nova em Libra veio forte como um gole de uísque.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

biscoito da sorte


"A liberdade, quando começa a criar raízes, é uma planta de crescimento muito rápido."

Ilustração: Célia Medeiros de Araujo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

costa carvalho


Caminhando pelas ruas de Pinheiros, segurando a saia pra não voar, segurando a vontade de parar para comer um brigadeiro ou de simplesmente parar. Na porta de uma das casas sobreviventes no bairro de prédios a la Ruy Ohtake tem uma senhora. De gorro e malha daquelas gostosas que fazem a gente ter vontade de estar na casa da tia Célia em algum dia dos anos 90. Uma das mãos apoiada no portão, a outra solta, o olhar perdido na rua. A cena é tão bonita que quero registrá-la com a câmera do meu celular (e faz tanto tempo que eu não fotografo). "Posso?". Por quê?, ela quer saber. "Ah, eu sou fotógrafa, e queria fazer um retrato da senhora, que está bonita". Não, ela diz. Eu dou um sorriso e concluo, como que para não criar um mal estar: "Não gosta de fotos, né? Tudo bem...". Tudo bem nada, caramba, era só uma foto. Mas, espera, a pessoa tem direito de não querer, certo? Que vergonha ter recebido um "não", será que alguém viu? A cabeça vai à mil, e eu só saí para almoçar uma empadinha no Pirajá. Às vezes parece que a vida toda não passa de uma monólogo, como A Alma Imoral, de Clarice Niskier - só que sem ninguém na plateia.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

minhas lembranças suecas


Junho de 1994 – A seleção brasileira de futebol enfrenta a Suécia em uma ardida semi-final da Copa do Mundo. Romário faz um gol de cabeça para alívio de outras milhões de cabeças da América do Sul.

Julho de 1997 – (1) Estou em um acampamento em Cincinnati, Ohio, EUA, com cerca de 50 crianças do mundo todo. Sinto muita saudade de casa e choro todas as noites agarrada a meu hipopótamo de pelúcia e a um pequeno terço de madeira. No meu quarto tem uma menina sueca cujo apelido é Charlie que parece ter o dobro da minha idade e o dobro da minha altura. Tem sorriso de atriz do seriado teen Seven Eleven. Certa noite, eu ofereço uma Chocolícia que ela come como se nunca tivesse visto antes uma bolacha na vida. Fico muito feliz.

(2) No último dia do acampamento, as crianças trocam entre si roupas típicas de seus países que usaram durante a chamada “noite nacional” – cada grupinho tinha um dia para mostrar aos outros um pouco de sua cultura, e isso significava basicamente preparar alguma comida e botar pra tocar alguma música (os dinamarqueses serviram uma bala horrível e a monitora do grupo passou com um lixão pra todo mundo cuspir fora). Eu e uma menina sueca loira, magra e inexpressiva trocamos nossas roupas, mas ela não me dá a camisa branca que usa por baixo do vestido azul e amarelo. Eu digo que sem isso pego minha roupa de frevo de volta, e destrocamos. Ela fica muito emburrada e eu troco minha roupa por uma muito mais bonita - a da menina norueguesa.

Setembro de 2010 – (1) Vou ver Anna Von Hausswolff tocar teclado na choperia do Sesc Pompeia. A menina, loira branca, está vermelha e tem uma voz de assustar crocodilos e espantar urubus. É das mais potentes que já ouvi. Acaba o show e ela vem ao nosso lado, escoltada por sua dupla de músicos, assistir à próxima apresentação. Tem menos de 1,60 de altura, usa shorts de surfista e, ele tinha razão: é absurdamente linda, carrega nos olhos o sol e a lua.

(2) As gêmeas Miriam e Johanna, do Taxi Taxi!, deixam o público embasbacado no teatro de duas plateias do Sesc Pompeia. Johanna canta com a garganta, o peito, o nariz, as pernas tortas. Sua guitarra Gibson dourada é maravilhosa. A irmã tem um cabelo corajoso, é magrinha e corcunda, eu poderia ficar ouvindo sua voz a noite toda, toca piano e ajuda Johanna a ter auto-confiança através de piscadelas e batidas de pé. Não sei definir a música dessas fadas suecas, só sei que assim como a Stacey Kent elas também conseguem vertiginosamente derreter icebergs (mesmo que não faça mais tanto frio na Escandinávia).

Foto: Anna, por Gary Landström

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

cartela de sonhos


Hoje eu fui para Buenos Aires passar uma semana assistindo aulas em uma escola pública. As pessoas não entendiam por que eu tinha ido lá, afinal já era formada, e havia boas escolas particulares em Buenos Aires. Mas eu me sentia tão bem sentada naquela sala, com aqueles alunos. Por quê só uma semana?”. “Porque não tenho dinheiro para ficar mais”. O único problema era a localização da escola. Ficava num canto escondido, longe do alcance das linhas de ônibus. Eu quase fui atropelada enquanto atravessava uma avenida em que as duas vias iam para a mesma direção. O guarda gritou: “Pare, pare!”, eu fiquei meio envergonhada, mas fui caminhando entre os carros e cheguei do lado de lá.

Ilustra: Leão de Friedensreich Hundertwasser

"eu hoje acordei pensando
num sonho que eu tive à noite
sentei-me na cama para pensar
no sonho que tive
no sonho que tive

sonhei que entrei no quintal do vizinho e plantei uma flor
no dia seguinte ele estava sorrindo
dizendo que a primavera chegou"


Roberto Carlos

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Y...


Ilustração: Julieta Arroquy