quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
o terceiro da quarta
lembrar de: nunca escrever "abs" só porque é conveniente. nunca escrever abs. nunca querer ser conveniente.
25

Acabou a era 20 e poucos. Vou fazer 25 anos.
Muda porra nenhuma.
Sou a mesma menina de 11 anos carregando uma mochila com Caprichos, bolachas, um terço de madeira e um hipopótamo de pelúcia.
Só me importo infinitamente menos com o que os outros falam de mim ou pensam sobre mim.
Me importo infinitamente mais em não magoar meus pais, em ser uma boa irmã para os meus irmãos e uma amiga mais bacana do que presente.
Gosto muito do amor.
Sou a mesma menina de 11 anos que preferia se encolher numa cama esconsa em vez de se juntar à algazarra noturna, à espera de uma manhã milagrosa em que levantaria sabendo precisamente o seu tamanho dentro do espaço.
só que agora eu amo essa menina.
*Ilustra: Cadjoo
lavanda
"há muito peguei gosto pelas coisas grandiosas da vida: a temporada das amoras, o cachorro dormindo na grama, o primeiro beijo na frente da igreja, o vento no rosto durante o passeio de bicicleta.
para não enrolar muito, um só canção velha do roberto: se eu pudesse voltar no tempo
e observar o menino que cresceu saltando apressado do carro e caminhando ereto e feliz pela usp, em direção à aula de alemão ou sânscrito.
e o sol ardido do inverno.
e os amigos que eu consigo enxergar sorridentes de dentro do carro em movimento, lá dentro na mercearia, felizes lançando mais um livro.
há muito cultivo com certo enfado o desprezo pelos jogos pequenos e mesquinhos do dia-a-dia: o rateio do poder, a bajulação, a batalha hierárquica pelo melhor computador & a melhor salinha & a melhor secretária.
o combate diligente às idéias novas e à ousadia (o poder é o sexo dos velhos, já dizia leminski).
o desprezo pela pequena história, pelas histórias invisíveis.
a impaciência e o deboche com os mais humildes e sem chance.
os falsos progressistas que, escondidos atrás de uma cortina de mentiras, dizem pelear em nome da objetividade.
é uma olímpica queda-de-braço essa que se trava todo dia entre as pequenas coisas grandiosas e as fabulosas coisas medíocres.
quando as coisas medíocres parecem triunfar, é preciso combater a chegada da angústia com alguma inspiração e presença de espírito.
ajuda muito também contar com alguma proteção de fora: um vaso com arruda, um padre cícero esculpido a canivete que veio do juazeiro, uma santa comprada de um pescador na foz do rio são francisco."
*texto santos & demônios, de jotabê medeiros
domingo, 13 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
segundo G.

Hoje de manhã, ao tentar abrir sem sucesso o spray de própolis porque resolveu baixar-me uma indevida dor de garganta, lembrei do meu amiguinho barriga-verde G., 11 anos, e de como ele foi um anjo aquele dia. Anjo como a mulher que se sentou ao meu lado no avião, me chamou com graça de "menina da arvorezinha", arrumou minha carteira escapulindo da bolsa e papeou comigo, sem enfeites ou chiliques. Mas essa é outra história.
Meu amigo G. chegou botando ordem em tudo: pendurou o passarinho de pelúcia no vidro do carro ("era só passar um pouco de saliva..."), carregou minha máquina fotográfica ("tá vendo esses pininhos aqui? não pode encaixar totalmente...") e fez meu rinossoro de própolis funcionar ("essas coisas geralmente vêm com um lacre no meio...").
De quebra, me deu uma de suas balas preferidas, delícia cremosa de morango, e me apresentou uma frutinha amarga dos cânions que ele comeu do pé com prazer de quem chupa bala de morango.
Enjoou quando liguei o ar-condicionado e, ops, descontou na porta do passageiro (abri a porta 20 segundos depois da hora certa). Logo depois, puf, o nariz começou a sangrar. Dei a ele uns papéis de seda amarelos amassados e inutilizados que estavam no porta-luvas. "Pelo menos agora esses papéis serviram pra alguma coisa, né?", sorriu.
Se ajeitou, abriu o vidro, retomou o fôlego e continuamos a caminho do Monte Negro, na cidade sem horizontes, ouvindo o programa da rádio Nevasca.
"Domingo não tem música no rádio", ele me avisou. Deve ser porque domingo é entressafra.
G., você que sabe tudo, o que fazer em tempos de entressafra?
*G. quis ficar com uma de minhas miniovelhas (a negra), e dormiu abraçado nela
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
bebida de limo

Ficava no canto esquerdo da sala de jantar. Eu não lembro de ter perguntado alguma vez por que ela tomava aquilo, nem o que era - acho que certas dúvidas as crianças preferem guardar com elas só para poder posteriormente teorizar à vontade sem o martelo da verdade para esmagar-lhes os devaneios.
"A nonna toma limo", eu pensava, encarando aquele copo de madeira de formato estranho coberto por uma corpulenta cobertura verde. Décadas depois, seria minha vez de tomar limo, mas não na sala de jantar do Morumbi e sim em território gaúcho, na varanda de uma casa de uma cidade chamada São José dos Ausentes.
Leila, nascida em Carazinho e criada em Apucarana, filha de italianos do Veneto, mulher extremamente doce e frágil que nasceu com a pele de um pêssego, olhos verdes e nariz de Gisele Bündchen. Na juventude, foi apaixonada por um general; adulta, casou-se com um italiano da bota que a venerava e, por toda a vida, amou arroz e chimarrão. E calhou de ser minha nonna.
Não foi amor ao primeiro gole, confesso que estranhei a bebida quente e um pouco amarga que ainda por cima deixava escapar pelo canudinho uns incômodos pedacinhos de erva. Mas bastou um chimarrão para cair de amores pela coisa, amor del lama, à moda dos Irmãos Bertussi.
Passei a "matear", como dizem as argentinas, quase todos os dias, levar ervinha no porta-luvas do carro, tem água quente aí na recepção, moçô? Comprei cuia, investi em uma boa bomba e carreguei na mala o peso de seis sacos de mate. Entendi quando a moça suspirou: "Nós só queremos ficar aqui no nosso sítio, com nossas plantas e nosso chimarrão".
Na varanda do apartamento em São Paulo, mostrei minha cuia à família. "Não acredito que você entrou nessas", disse meu pai, orgulhoso, repetindo o gole, mesmo tendo achado a bebida um bocado menos atraente do que sua caipirinha de limão.
"Chimarrão? Mas tu é gaúcha?", chegou a me perguntar um cabra ao me ver pedindo água quente. "Sou neta", estufei o peito. Era minha primeira vez no Rio Grande do Sul, mas senti como se fosse incalculável.
Foto: Gaiteiro em apresentação no restaurante Galpão Costaneira, em Cambará do Sul
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
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