quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

a casa da Cônego


É a única casa do quarteirão que não sucumbiu à comercialização predatória. Fica entre a Thankyou Copiadora e um escritório qualquer, perto da cafeteria Rubi, onde praticamente toda tarde tenho ido buscar um suco Del Valle de goiaba. Dependendo do meu humor, peço também uma fatia de bolo de mandioca ou milho - que eles servem quente, acho isso tão cortês. Um dia, parada em frente ao portão azul, vi o dono da casinha sair no portão, à espera de alguma entrega. Velho franzino, queixo pontudo e bastante cabelo branco. Gostaria de conversar com ele, que deve saber muito mais sobre futurologia do que todos os Lucianos Hucks do bairro - ao menos a futurologia que me interessa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

pé com pé


Manoel e Olívia abriram a porta de vidro pela primeira vez, mas com a naturalidade de quem faz isso sempre. Na hora do parabéns, eu instiguei o Manoel a surrupiar a cobertura de suspiro, e ele ficou lá, maior blasé, metendo o dedinho no bolo, lindo com sua carinha de Oompa-Loompa e suéter branco.
O carinho da amiga ao me presentear com um bloco de um São João Batista que é a cara do Pequeno Príncipe. A prima distante que adivinhou o perfume. O bilhete do pai com o clássico emblema de dinossauro, e minha mãe habitualmente tão linda. As três mosqueteiras, sempre ali, felizes por constatar que certas coisas nunca mudam - a tia Dete está mais jovem do que nunca - e outras mudam, que bom (quem é essa garota chique de tubinho branco e delineador nos olhos?).
Que delícia: te espiar com o rabo do olho dando risada sentado no sofá da vovó, ouvindo histórias da minha amiga que nem eu mesma ouvi.
A disposição da avó que há 25 anos abre sua casa para meus aniversários - minha festa de 1 ano foi ali. Tenho um videocassete com uma cena em que estamos eu e a Pó na extinta casinha de bonecas. Eu andando para lá e para cá com um vestidinho balonê cor-de-rosa, mas muda; ela sem levantar do chão, de vestido florido verde, mas uma matraca engatinhante. Não tenho fotos, mas há testemunhas: naquela sala com porta-retratos de noivas já se dançou muita Macarena. E, lá no fundo do quintal, perto do balanço, o menino foi visto dando um beijo (de língua) e passou a fazer ainda mais sentido o apelido "lábios de couve-flor".
A avó é quem recebe o primeiro convidado, e depois dorme sozinha com a bagunça na sala.
Neste ano, senti tanta alegria vendo um monte de gente querida reunida que, na hora de passar a espátula no bolo, não consegui separar a minha felicidade da felicidade dos outros. Que sejam todos felizes e saudáveis! A vida não é fácil, mas vale o tranco.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

bravo

"(...)
E agora, neste momento - que horas são? –
a telefonista guarda o baton na mala usa os auscultadores liga electricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-se, viu chuva na vidraça, e imaginou-se banqueiro
para começar o dia
e o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar inicio a coisa alguma.
Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica isolada,
cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas - pás! - em muitas repartições,
uma velha a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manucure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo o facto atrás dos vidros
- um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodinâmico
e a tocar telefonia: and you, and you my darling?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu?
Eu, nada. Eu, eu, é claro...
(...)"

*Uma grande razão, de Mário Cesariny

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

o terceiro da quarta

lembrar de: nunca escrever "abs" só porque é conveniente. nunca escrever abs. nunca querer ser conveniente.

25


Acabou a era 20 e poucos. Vou fazer 25 anos.
Muda porra nenhuma.
Sou a mesma menina de 11 anos carregando uma mochila com Caprichos, bolachas, um terço de madeira e um hipopótamo de pelúcia.
Só me importo infinitamente menos com o que os outros falam de mim ou pensam sobre mim.
Me importo infinitamente mais em não magoar meus pais, em ser uma boa irmã para os meus irmãos e uma amiga mais bacana do que presente.
Gosto muito do amor.
Sou a mesma menina de 11 anos que preferia se encolher numa cama esconsa em vez de se juntar à algazarra noturna, à espera de uma manhã milagrosa em que levantaria sabendo precisamente o seu tamanho dentro do espaço.
só que agora eu amo essa menina.

*Ilustra: Cadjoo

lavanda


"há muito peguei gosto pelas coisas grandiosas da vida: a temporada das amoras, o cachorro dormindo na grama, o primeiro beijo na frente da igreja, o vento no rosto durante o passeio de bicicleta.
para não enrolar muito, um só canção velha do roberto: se eu pudesse voltar no tempo

e observar o menino que cresceu saltando apressado do carro e caminhando ereto e feliz pela usp, em direção à aula de alemão ou sânscrito.
e o sol ardido do inverno.
e os amigos que eu consigo enxergar sorridentes de dentro do carro em movimento, lá dentro na mercearia, felizes lançando mais um livro.

há muito cultivo com certo enfado o desprezo pelos jogos pequenos e mesquinhos do dia-a-dia: o rateio do poder, a bajulação, a batalha hierárquica pelo melhor computador & a melhor salinha & a melhor secretária.
o combate diligente às idéias novas e à ousadia (o poder é o sexo dos velhos, já dizia leminski).
o desprezo pela pequena história, pelas histórias invisíveis.
a impaciência e o deboche com os mais humildes e sem chance.
os falsos progressistas que, escondidos atrás de uma cortina de mentiras, dizem pelear em nome da objetividade.

é uma olímpica queda-de-braço essa que se trava todo dia entre as pequenas coisas grandiosas e as fabulosas coisas medíocres.
quando as coisas medíocres parecem triunfar, é preciso combater a chegada da angústia com alguma inspiração e presença de espírito.
ajuda muito também contar com alguma proteção de fora: um vaso com arruda, um padre cícero esculpido a canivete que veio do juazeiro, uma santa comprada de um pescador na foz do rio são francisco."


*texto santos & demônios, de jotabê medeiros