segunda-feira, 19 de setembro de 2011

carta para Deborah

Que andei todos os dias pelas vielas da Cidade Velha e não me cansei, que ficaria ali mais pelo menos 10 dias perdida entre aqueles bairros com separações virtuais. Que acho que foto nenhuma consegue transmitir pra gente o que é aquilo, o que é estar naquele redemoinho, naquele miolo onde você toma um café árabe forte como um rojão e descobre como pode ser na mesma proporção exaustivo e excitante negociar o preço de uma mercadoria.

Onde você vê um bebê de quipá comendo Cheetos, senhoras muçulmanas pedindo esmola na entrada do Muro das Lamentações e moças judias com seus 25 anos e três filhos a tiracolo, judeus ortodoxos que não te cruzam o olhar vestindo preto sem derramar uma gota de suor.

E de repente parece só mais um comerciante que te dirige um olhar sedutor, pergunta de que país você é e diz: "Entre, você gostou desse? Por favor entre, aqui dentro tem muito mais". Mas por alguma sorte entramos, e lá estava a pessoa mais extraordinária que conheceríamos em 9 dias de Jerusalém, o joalheiro marroquino Omar que, entre muitas outras coisas, tem em sua loja uma cisterna de 2 mil anos e nos deu uma aula sobre jóias & cordialidade.

O Monte das Oliveiras tem gosto de primeiro, foi a primeira vez que vi azeitonas no pé e entendi que essa viagem não seria um passeio.

Boiamos no Mar Morto e ficamos embasbacados com a existência de beduínos em todo o trecho da desértica estrada. Comprei lama e um creme espetacular de vanila com sais minerais do Mar Morto onde não está escrito em lugar algum da embalagem Dead Sea, mas como contestar em hebraico?

Passeamos pela Galileia, conhecemos as ruínas de Kafarnaum, a casa de Pedro, a Igreja do Sermão da Montanha. Na Igreja das Bodas, em Cana (Caná) quis interromper um casamento para que o padre nos abençoasse, mas ele foi mais sensato - como quase sempre - e me impediu. Acabamos acendendo uma vela, levando três microvasos de cerâmica e um lenço transparente e brilhante que enrolei na cabeça e foi a foto que minha mãe mais gostou.

O Santo Sepulcro é pesado, mas foi lá que um padre ortodoxo me benzeu e benzeu o santinho do meu pai trazido dali há mais de uma década, pela nonna.

Belém é autêntica, alto astral, maravilhosa e palestina. Me ajoelhei e rezei no canto onde teria nascido Jesus, rimos da loja fajuta Stars&Bucks, onde não me perdoo por não termos tomado um café, e ficamos assustadoramente 1 hora para deixar o muro que separa a cidade de Israel. Acho que nunca vou esquecer: ele indo buscar sorvetes de frutas enquanto eu fotografava, do ônibus, o céu com mil bandeirinhas da Palestina. Naquele momento, ficou claro: estávamos em outro país.

No Muro das Lamentações, me arrepiei todas as vezes e chorei todas as vezes. Deixei bilhetes, ganhei uma saia para cobrir os joelhos, cumpri o ritual, observei Roberto Carlos rezando e sendo bajulado pelo rabino mor dos lugares sagrados de Jerusalém.

Nos últimos dias, num impulso pegamos um ônibus para Tel Aviv e caímos, por acaso (atrás do cara que ia arrumar as rosas do Roberto) numa espécie de Ceagesp de Tel Aviv, o shukri Ha'Carmel. Lá vi as maiores tâmaras, comemos o melhor sanduíche de cordeiro e a limonada fajuta mais providencial.

Que mar tem Tel Aviv, que mercado foda de antiguidades tem Yafo!
Trouxemos um velho rádio de tape para o fusca e um móbile enferrujado com bons presságios.

O presente mais legal para nossa casa foi o tapete da loja de Omar.
Num futuro, talvez as lâmpadas mágicas de Aladim.
Abacaxi acha que o (outro) tapete novo, o do corredor, é dela e se esconde embaixo dele para nos dar tremendos sustos.
O Menino Jesus repousa em uma manjedoura de concha na estante nova.
O doce telefonema da minha avó dizendo que os presentes mais especiais foram os de Jerusalém.
A melhor comida foi o arroz amarelo com cordeiro no iogurte e salada de pepinos do Abu Taher.
Ganhei um colar de âmbar que não tirei do pescoço e no último dia fui saber o que ele significa (e se fosse mais discreta guardava pra mim como um segredo egoísta).
Toda vez que eu me ensaboo com o sabonete de romã da loja de temperos eu imagino a jovem mulher muçulmana que voltou à loja de temperos só para buscá-lo se ensaboando também.
Minha casa está cheirando a zaatar até hoje.
Eu não sei mesmo explicar por que, mas de alguma forma voltei de Jerusalém mais em paz.

Dois arrependimentos: deixei de comprar um lenço de seda com pavões costurados em miçanga, e disso me arrependi já de volta ao quarto de hotel.
Não comi as tâmaras medjool mais bonitas de Israel.
Mas como me disse um guia turístico em Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, vendo minha frustração frente à neblina teimosa cobrindo os cânions, quando algo assim acontece é a cidade te chamando de volta algum dia.

E minha correntinha de S. Bento caiu minutos antes de eu deixar a cidade, minha proteção, mas ele me conformou dizendo que se caiu é porque tinha carga pesada nela e tinha que ficar ali.
É nessas horas que todo desentendimento se dissolve como açúcar em água e eu entendo o que uma vez vi num filme bobo: num álbum de fotos, estamos sempre sorridentes. Mas são os momentos difíceis que ligam uma foto e a outra e a outra.

Termino como Roberto Carlos começou aquele show que me encheu de alegria de menina: a Jerusalém, minha reverência.

foto: claudia schembri

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sampa




Cinco minutos no Largo S. Bento e meia dúzia de fotos que só me fazem sentir São Paulo tu és bela. Às vezes só o que falta é um filtro.

domingo, 28 de agosto de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sumé



É de lá que veio uma pessoa das minhas preferidas.

domingo, 21 de agosto de 2011

Uma história das irmãs de General Carneiro


Era aos domingos. Atravessávamos como dois gafanhotos o portão de ferro da casa do Morumbi e antes de cumprimentar o nonno e a nonna corríamos para os braços delas. Neri & Maria. Dormiam na parte de baixo da casa, em uma área de serviço porém agradável, com varanda e alguma luminosidade.

Cheiro de ameixa, leite, velhinhas com adoráveis vestidos florido-apagados de domingos nublados. Era puro amor. Nos abraçavam forte, eu e meu irmão, lembro do rosto sorridente da Neri, tinha cabelos belos e ásperos ainda não totalmente grisalhos apesar da avançada idade. Parecia-me que me olhar era sua maior felicidade, e choro sem dor e sorrindo muito grata por essa forma de amor que aprendi com ela.

Religiosamente nos entregavam balinhas de leite da Kopenhagen e R$ 20 para cada um, era uma fortuna, sustentou nossos álbuns de figurinha e nossas sessões de cinemas com casquinhas de chocolate do Mc (eu preferia as mistas, mas achava que era uma pessoa do chocolate e precisava ser coerente). Não me lembro de um domingo em que saímos de lá sem bala e sem mesada.

Preparavam os melhores pratos do mundo, uma lasanha de berinjela que era receita da nonna e a tia Tica disse que vai ensinar-me, polpetas que à época eram porpetas, o 'erre' bem puxado de italiano da Mooca. Depois do almoço elas vinham nos trazer no jardim, enquanto procurávamos tatus-bolas para experimentos infantis, leite condensado com granulado de brigadeiro, em xícaras de café.

Sotaque caipira, com os 'erres' carregados e dieta de 'esses'. Só hoje é que fui saber onde nasceram as irmãs: em General Carneiro, uma das cidades mais frias do Paraná.

Gostavam de praguejar, e eu, seguindo o exemplo de minha mãe, procurava palavras com efeito reverso. Neri se queixava da saúde, eu respondia "Neri, você ainda vai me ver entrar na igreja!". Ela engrandecia, alegrava, e perguntava "será que eu vou?" acreditando muito que sim. Lembrando da promessa, Maria, já com seus 90 anos, já sem Neri ao seu lado, já morando na casa de Itu, me bordou um enxoval. Como dizer que eu já não pensava em me casar? Não disse. Beijei-lhe a testa, acariciei sua mão com dedinhos tortos e veias saltadas e sentenciei: é lindo. A vida se encarregou de explicar o resto.

No mês passado, poucos dias antes de partir, Maria falou à amiga Neusa que se viesse a faltar, as fotos eram dela. As fotos as quais se referia eram fotos minhas, do Marco e do Lucas que tinha penduradas na parede do quarto desde os anos de Morumbi. Mudava de casa, mas não mudava as fotos de lugar. Pequena Nana de chapelinho branco com uma mosca na aba e expressão invocada.

Maria considerava aquelas fotos seu maior patrimônio. Chorei. Chorei apertando suas mãos no hospital de Itu porque sei que muitas vezes lhe faltei. Pelo menos deu tempo de dizer, olhando fundo em seus olhos sem óculos: o amor que eu tenho por você e pela Neri é amor mesmo que tenho pela nonna, está me ouvindo, Maria?

Em Jerusalém, acenderei duas velas no centro da igreja mais bonita para aquelas que nunca me faltaram; me ensinaram o valor das balas de leite e do dinheiro, e deixaram para sempre meus domingos encantados.

foto: daqui

quinta-feira, 18 de agosto de 2011


"Torna-te aquilo que és"

Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Y Dale Alegría A Tu Corazón

Y dale alegría, alegría a mi corazón
es lo único que te pido, al menos hoy,
y dale alegría, alegría a mi corazón
y que se enciendan las luces de este amor.

Y ya verás como se transforma el aire del lugar,
y ya, ya verás, que no necesitaremos nada más.

Y dale alegría, alegría a mi corazón
que ayer no tuve un buen día por favor,
y dale alegría, alegría a mi corazón
que si me das alegría estoy mejor.

Y ya verás, las sombras que aquí estuvieron, no estarán,
y ya, ya verás, que no necesitaremos nada más.

Y dale alegría, alegría a mi corazón
es lo único que te pido, al menos hoy,
y dale alegría, alegría a mi corazón
afuera se irán las penas y el dolor.

Y ya verás, las sombras que aquí estuvieron, no estarán,
y ya verás, las sombras que aquí estuvieron, no estarán,

y ya, ya verás, las sombras que aquí estuvieron, no estarán,
y ya, verás, que no necesitaremos nada más.

*Fito Páez