sexta-feira, 31 de julho de 2009
Os tristes e alegres sofrimentos da gente
Na sexta-feira passada, num desses dias em que você se sente entre duas paredes e não consegue achar o chão, parei no Sesc Paulista. Era o meio do caminho até o Sesc Vila Mariana, onde assistiria melancolicamente um show incrivelmente lindo. Aí peguei os papéis em cima do balcão e simpatizei com um cor-de-rosa que tinha duas menininhas na capa. Coppélias?! Meninas ou bonecas? Era uma peça infantil que contava a história das irmãs Coppélia e Calunga. Calunga. "Entrei num casarão com o coração na mão. Entrei num casarão com o coração na mão...". Calunga, dizia o papel, é uma bonequinha que faz parte do maracatu, carregada por uma das mulheres do grupo que sai na rua cantando e dançando. Ela pode ser feita de madeira, de cera ou de plástico mesmo. A boneca escolhida para ser a Calunga tem de ser abençoada e batizada com um nome especial de rainha ou princesa. Quando o maracatu surgiu, ela era uma espécie de santinha ou rainha africana que trazia proteção para o grupo. E agora me disse o Rosa através da Adélia: os tristes e alegres sofrimentos da gente. Um presente delicado como a história da Calunga, a música do Lucas Santana, o e-mail da amiga e o cheiro da flor da abóbora que eu ainda não conheço.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
urgente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
(Eugênio de Andrade)
Quadro: Oswaldo Guayasamín
sexta-feira, 24 de julho de 2009
o que é o que é
Hoje, no blog do Luiz Horta: "Todas as coisas amáveis, seja boa educação, ou vinho, seja uma comida saborosa, ou aquela música serendipiticamente escutada na rua, um origami, uma detalhe qualquer casual no dia a dia, o sujeito que para de lavar a calçada para eu passar, o bilhete do entregador de jornais se desculpando, tudo isto, é a mesma coisa. É a rejeição da grosseria que desumaniza. Ou como escreveu um outro blogueiro que sigo: 'pela humanização dos humanos'".
*Na foto, minha amiga curaçolenha Tessa
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Meu nome é este

Retirava do canto esquerdo da bolsa um antigo cartão quando lhe perguntavam seu nome. Detestava a ideia que o escrevessem errado, detestava ter de pronunciá-lo lentamente, da maneira mais fulgente possível, e ouvir do outro lado: "Como? Com o que?". Mas não quando perguntavam qual era sua graça. Daí guardava a ranzinzice para quando tivesse de enfrentar telefonistas das operadoras de celular e abria um sorriso do tamanho do Vale do Paraíba: meu nome é este. Ainda sorria de novo quando alertava 'ó, é com dois emes'. E se estivesse muito de bom humor (geralmente acontecia em dias frios) até contava uma historiazinha sobre o nome ou comentava como é difícil isso que está acontecendo ali, você não acha? E de tanto que sorria é óbvio que ninguém acreditava que estivesse achando tudo mesmo difícil. Tem um nome para esses momentos de felicidade sem crediário? E para esse cansaço que às vezes multiplica os anos e dilata o passo? A gente devia ter vários nomes, um pra cada uma das vidas que a gente vive no mesmo dia.
terça-feira, 21 de julho de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
taramelear

Fiquei com vontade de comer a cera. "Um dia eu tava derretendo o açúcar antes da depilação e a cliente bateu na porta e nem pediu, afirmou: 'Eu preciso comer isso aqui, tá muito bonito'. E comeu!", conta a manicure Lúcia, que desejava sinceramente colorir minhas unhas de grafite nesta manhã.
Também fiquei com vontade de me encher de pulseiras, brincos e colares dourados e barulhentos, como a Layale.
Caramelo mostra mulheres à beira de um ataque de nervos, menos ataques e mais nervos.
A diretora do filme, Nadine Labaki, vive a Layale, que eu ainda posso ver dedilhando a janela, esperando o carro dele estacionar na frente do Si Belle.
Cada mulher do salão em Beirute pinta as unhas de uma cor, e mesmo que você nunca tenha pintado as suas de grafite, reconhece o tom.
Tem aquela que se submete a uma cirurgia para não ser desmoralizada e enervar o noivo (que pede que ela feche a camisa e esconda as argolonas da orelha em jantar familiar). Tem aquela que sabe o que quer, mas parece faltar coragem para pular no rio com deboche de criança. Tem aquela que suja a saia de vermelho para se sentir mulher, tem aquela que não consegue desconcentrar o amor na irmã maluquete. E tem aquela que espera e quando percebe que ele não vem, com dor e sem amargura muda de esmalte.
Do quarto barato de motel ao jardim florido do casamento, elas estão sempre juntas, arrancando sorrisos quando a boca pesa mais de 1 tonelada.
Me emocionou muito a cena em que a mãe segura nas mãos da filha prestes a se casar e, com uma ingenuidade macia de algodão explica que uma nova fase de sua vida vai começar, que a princípio vai ser estranho, mas que tudo irá se ajeitar com o tempo. "Você vai ser a melhor mulher", e a filha chora, chora a blusa que teve de ser abotoada, chora a sala de cirurgia, tanta coisa. E a mãe chora de volta num entendimento mútuo totalmente oblíquo e, por isso mesmo, perfeito.
Uma mild soap opera, um filme com uma tremenda feel good atmosphere, escreveu a gringaiada.
Eu não sei, eu só sei que, da próxima vez, a cera não me escapa.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
stein

"(...) Quantas vezes já ouvi Picasso dizer-lhe, depois que ela faz alguma observação sobre um quadro seu, exemplificando com alguma coisa que estava procurando fazer: racontez-moi cela. Traduzindo em miúdos, me explica isso melhor. Sentam em duas poltroninhas baixas, lá em cima no apartamento dele, os joelhos se tocando, e Picasso diz: expliquez-moi cela. E eles explicam, um ao outro. Falam de tudo, de quadros, de cães, de morte, da tristeza. Pois Picasso, sendo espanhol, encara a vida de maneira trágica, amargurada, triste. Às vezes, Gertrude Stein desce, vem ter comigo e diz: Pablo estava querendo me convencer que eu sou tão triste quanto ele. Insiste que sou e pelas mesmas razões. Mas você é?, pergunto. Bem, não acho que tenha cara de triste, tenho?, e dá risada. Ele diz, ela conta, que não tenho porque sou mais corajosa, mas não creio, afirma, não, acho que não sou."
*A autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein
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