quinta-feira, 29 de março de 2012

a pedidos

fechei as redes sociais
mas fico pensando
calculando quanto ainda preciso emagrecer
quais são as contas que preciso pagar quando cair o dinheiro segunda
pensando em passagens aéreas para lisboa
se a laura está almoçando bem
se vou sentir sono ou vou conseguir aproveitar o show do joe cocker esta noite
se o etienne vai me responder
se essa coca zero ainda presta, ou já perdeu o gelo
se a marcia vai conseguir me atender terça, e se vai dar tempo de terminar o enorme lote de textos no fim de semana

resposta sem que houvesse uma pergunta: esses são os fios que não param de se cruzar na cabeça de uma louca mulher

ilustração: arnaldo baptista

quarta-feira, 28 de março de 2012

you better run, better run (outrun my gun)

porque muito trabalho para fazer em poucos dias invariavelmente implica na descoberta de novas incríveis músicas

terça-feira, 27 de março de 2012

eu e você, na ilha do sol


Nós duas, a água e o vinho, as irmãs tão diferentes que nem parecem irmãs.
De repente a vida nos botou no mesmo bote e jogou para dentro d'água, dezessete anos depois. Eu, a mais velha, com a incumbência de conduzir a viagem. Era uma Ilha Grande.

Ela desembarcou do ônibus como quem vem do dentista, com calça e casaco felpudos, uma mala gigante e uma expectativa maior ainda. Olha só, nosso hotel é simples, eu disse. Tudo bem, tô acostumada, ela respondeu, fingindo que não tinha problema, mas movimentando os olhos de um jeito que eu sei que tem algum problema.
Eu soltei uma risadona nervosa
Tudo parecia dar errado, mas por isso mesmo era tão engraçado. O esmalte vermelho que respingou no lençol branco e eu com aquele discurso maternal "mas não é pra pintar as unhas em cima da cama" acabei derrubando o frasco inteiro no lençol, e depois no chão, espatifou-se e espalhou esmalte para todo lado, foi lindo. Tentativa frustrada de ser mãe e fazer as coisas certas errando mais ainda. Choramos de rir como há anos eu não fazia.
O sol ardido que me tostara durante cinco dias subitamente foi embora, e em vez de havaianas e biquínis nosso rotineiro artesanal indumentário eram capas de chuva e cangas (para cobrir a cabeça, é claro).
Ela visitou pelo menos uns 30 hotéis comigo, e às vezes suspirava "que lindo esse quarto", e eu era incapaz de aspirar profissionalismo e reprimi-la.
Irritou-se com um gerente grosseiro que mandou que voltássemos outro dia, "você não vai voltar, né?", me questionou. Expliquei que a gente ainda cruzaria outras pessoas antipáticas assim, mas era preciso deixar isso de lado porque o mais importante era fazer um bom trabalho. E foi justamente esse gerente, no fim só um carioca marrento, a primeira pessoa no mundo que olhou para nós duas e falou: "Vocês são irmãs? Têm o mesmo olhar".
Me deixou boquiaberta ao interpretar de um jeito completamente novo para mim um trecho de um dos meus poemas preferidos, Com Licença Poética, e ainda lembrar que furtei  "fundou seus próprios reinos" e usei a frase num texto em homenagem ao nonno.

Observá-la durante alguns dias, nós que há pelo menos dois anos ficamos juntas por apenas algumas horas e nunca a sós, foi como voltar oito anos no tempo e me observar. A sofrível descoberta de que nenhuma relação acaba por falta de amor e sim por outras ausências ou presenças, a impaciência diante do mau tempo, a impaciência diante de qualquer espera.
Nossas manias são as mesmas e nossas alegrias vêm do mesmo poço. Ela contando um caso no hall de entrada do hotel para nossos novos amigos era como me ouvir contando um caso. Ela comendo um improvável delicioso fetuccine ao molho branco, num restaurante que não tinha água mineral e cujo dono era um anão, e dizendo "eu adoro me sujar comendo", era como me observar comendo.
Eu a amo como amo poucas pessoas no mundo.
É um ensinamento e tanto, esse de conviver com uma fatia do que você é e do que você foi um dia.
Depois disso, melhorei algumas manias, tipo frear a afobação na hora de pedir informação na rua. E entendo quando estou impaciente e ele, o meu homem, me olha com ternura, querendo passar através de um fio invisível uma serenidade que só se conquista sozinho enrolando-se nos fios da vida que você escolheu costurar.

No penúltimo dia, o tempo continuava inzoneiro, mas vendo a carinha de resignação dela me enchi de coragem e inseri na programação a cachoeira da Feiticeira. Uma trilha inacreditavelmente íngreme e lamacenta, o que para ela, loira, linda e atlética, não era exatamente um problema. Quem caiu de bunda fui eu!
E foi ali, na Feiticeira, que invertemos os papéis. Ventava muito e ela se jogou na água fria com uma entrega bonita de ver. Se não fosse por ela, que me deu a mão como uma garantia muda de que se eu não aguentasse a força da água ela estaria ali para me segurar, eu afirmo com toda a certeza, eu não teria entrado debaixo daquela queda e tomado o melhor banho de cachoeira de que se tem notícia.




segunda-feira, 26 de março de 2012

entre mineiras


“Porque a vida é inesgotável. Hoje eu deixo queimar o bolo, amanhã não queima. O tomate hoje está bom, amanhã não está. É tudo muito variável na sua identidade. É igual mas é diferente. É muito rico. De tédio, ninguém precisa de morrer. Só se for muito bobo. Bobão mesmo. A vida é rica demais da conta”.

Adélia Prado, minha rainha do nilo minha divina isis, em entrevista à jornalista Elemara Duarte

domingo, 18 de março de 2012

sobre suas cabeças


Ontem eu sobrevoei de Robson 44 a minha cidade, que é incrivelmente mais bela do que rotineiramente me parece, e por isso estou feliz.

quinta-feira, 15 de março de 2012

corro não nego pararei quando puder

*versão de "devo, não nego, pagarei quando puder" - frase que meu avô Hugo repetia certamente com menos frequência do que gostaria. E que poderia, tranquilo, ser o título desse post também (mas só até amanhã!)

terça-feira, 13 de março de 2012