segunda-feira, 5 de novembro de 2012
eu não vou comprar um novo
Hoje em dia é assim: uma coisa quebra, te recomendam comprar outra. Recentemente houve uma rebelião de eletrônicos em casa. Primeiro foi a batedeira; depois o computador, a revolta mais agressiva; aí o iPhone apagou; e por fim na terça-feira passada o fogão entrou em curto circuito. Se algum desses problemas me chateou? Nem um pouco. Mas achei engraçada a reação das pessoas. Todas, com exceção apenas da minha mãe, argumentaram que eu tinha que comprar outro computador, outro fogão, que não compensava arrumar. Financeiramente, talvez não. Mas, misericórdia, são equipamentos que nem bem completaram dois anos, e já vão pro lixo? Sei lá, acho que é da vida se conformar que você às vezes vai se prejudicar um pouco para evitar desastres maiores. Tipo pilhas de lixo com fogões, celulares e computadores cuja vida foi prematuramente interrompida por...caprichos estrambóticos modernos. Eu chamo assim. E eu nem reciclo o lixo na minha casa, não sou exemplo de cidadã, não sou engajada em causa nenhuma. Mas gosto que o meu computador seja o mesmo que viajou comigo pro Ceará, e gosto de olhar o fogão e lembrar o dia em que faltei no trabalho e fiquei esperando ansiosamente o caminhão das Casas Bahia estacionar na porta de casa. É preciso ter paciência para ouvir (e contar) uma boa história. E não é coincidência que muitas de nossas melhores tenham sido recolhidas numa caçamba de lixo.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Flor dos mortos
Uma flor de Día de Muertos em homenagem a todos os queridos que já se foram.
Foto: Paula Desgualdo, Especial para o Calunga Cor de Rosa, de Toluca de Lerdo, México
sábado, 27 de outubro de 2012
habitual
É engraçado, o hábito. Trouxe um café do aeroporto de Bogotá, café Rausch, mezcla de notas cítricas con leve gusto de mandarina. Excelso Supremo Especial, produto com a assinatura dos chefs Jorge y Mark Rausch. Uma beleza, o café. Cheiro, maravilhoso; na boca, maciozinho, redondinho, suavemente cítrico e... desagradável. Veja, o café era ótimo, mas não era o nosso café de todo dia, o café forte, rústico, amargo e até meio sujo que nos recepciona toda manhã, garantindo faça chuva ou faça sol, haja correria ou haja contemplação, que vai dar tudo certo e amanhã estarei esperando vocês de novo. Quente e igual. O legal é que hábito a gente pode mudar, tudo é uma questão de costume, desde cedo a gente aprende. Parecia impossível se acostumar com a nova classe, parecia impossível se acostumar com a separação dos pais, o fim do namoro, o novo idioma. Mas a gente escolhe e, se não tem escolha, se adapta. Só que no caso do café não houve trégua, não. "Estranho", disse ele; "Estranho", disse a mãe. Esse café sai, decretei. Botei de volta no pote o nosso café bandidão. Do colombiano restou a caixa, não tive coragem de jogar fora, pois é chiquérrima, e coleciono coisas como caixas de cafés exóticos e lâmpadas mágicas do Oriente Médio. A gente só coleciona o que não é natural nosso, que linda a embalagem desse leite americano, que lindo esse pote de biscoito suíço! Já viu alguém guardar caixa de sabonete Dove, palha de milho de pamonha? O que é diferente a gente quer guardar, o que é nosso não precisa, semana que vem tem de novo. Só o hábito liberta.
foto: café expresso que eu tomei quase até o fim (o que não é nada habitual). No restaurante Fabbrica, mesmo metido uma boa surpresa em Williamsburg, no Brooklyn, Nova York.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
danse serpentine
Para minha irmã Paula Desgualdo, em homenagem aos seus coloridos e silenciosos rodopios, que tanto têm me inspirado a rodar os meus.
(via Facebook da sobrinha Mariana Medeiros Seixas)
domingo, 21 de outubro de 2012
para um domingo quase chuvoso
Poucas músicas no mundo você ama à primeira ouvida e sempre com a mesma dor e paixão. Essa é uma delas. Cat Power, the Greatest.
domingo, 7 de outubro de 2012
fubá das mulheres
Comecei a trabalhar na mesa para as tias e primas logo cedo, depois da votação.
Quer dizer, primeiro botei ordem na casa.
Veja, não existe bolo melhor que o da vovó. Emprestando uma expressão dele, "falo sério". Pergunte para qualquer um dos meus 19 primos Laloni se eles não carregaram a mesma prestigiosa alcunha na infância, "neto da vovó Teresinha, do bolo branco".
Quando tinha festa na escola os outros até podiam levar os bolos de suas avós, mas a maior expectativa sempre foi por aquele bolo da vovó Teresinha, bolo fofinho recheado de doce de leite e coberto por uma caprichada camada de uma espécie de marshmallow. Depois que fiz uma reportagem sobre suspiro e entrevistei minha avó, descobri que a cobertura tinha sobrenome aristocrático - merengue italiano. Depois que sujei o rosto de suspiro, descobri que a cobertura é aristocrática, geniosa e não faz voo sem escalas.
Uma vez, na escola, nalgum dia de 1995 - essa foi engraçada - lembro de estar diante de uma grande mesa cheia de bolos. Deviam ser bolos das avós. Eu estava na frente do bolo branco, que se não me falha a memória ainda por cima levava morangos. Seu vizinho era um bolo de fubá simples. O Rafinha, provavelmente neto da autora do bolo de fubá simples, disse alto, como se pra ele mesmo: "Só porque um bolo é mais bonito não significa que ele seja mais gostoso". É verdade, Rafinha. Mas...não desta vez, my friend.
Já fiz o merengue italiano mais de dez vezes, e posso dizer que acertei uma (ainda assim não ficou perfeito). Nesse dia, a menina deu uma colherada na tigela e fez aquela cara de felicidade espantada, de quando se reconhece um sabor distante muito querido. "É o creme que minha avó fazia pra mim!". A frase me matou, aí eu quis ouvir isso sempre, quis que ela se lembrasse da avó sempre, só que o suspiro deu certo essa vez e não deu mais do mesmo jeito.
Aí no domingo passado comprei duas dúzias de ovos e fiquei das 18h às 22h na cozinha batendo clara com calda de açúcar, lendo livros de receita e todos os resultados da busca "o segredo do merengue italiano". Foi um vídeo em espanhol, que mostrava o passo a passo da calda sem cortes, que me levantou a pestana: é isso! Entendi o suspiro (o que não significa que saberei fazê-lo sem mais errar; entendimento mútuo é apenas o primeiro passo para uma relação estreitar).
Hoje, em nosso encontro, a tia Cristiane disse que fez o doce de morango da vovó e achou tão maldito o ponto do merengue que decretou: "Sempre deixei o creme branco pra lá na tigela, agora vou comer todo, sempre, só de raiva". A gente se olhou com cumplicidade. A vovó não entendendo muito bem o porquê, pra ela é tudo muito simples.
Mas eu falava do fubá.
A vovó disse umas três vezes que o bolo era "maravilhoso" (e a tia Célia, que nem é muito chegada em doces repetidos, comeu mais de uma fatia; a tia Carol sentenciou "não dá pra comer um só").
E quando Teresinha pediu a receita, foi quase como a redenção do bolo de fubá do Rafinha.
Me senti tão honrada que fiquei sem saber o que responder, só abracei a vó forte, e disse: mas é claro! E depois, recuperada do susto: vó, se um dia eu preparar bolos que se parecem de longe com os que você prepara, já estarei satisfeita. E agora aqui em casa, a louça lavada, o garoto ouvindo The Thrill is Gone e as malas vazias prestes a serem preenchidas, eu me sinto a neta mais feliz do mundo.
Mas vó, sério: foi sorte (com uma colher de sopa de obsessão e mil xícaras de amor).
obs. Adiós, bolinhos, volto pra vocês em breve! Vou presenteá-los com uma espátula de verdade
obs. 2. Parabéns, Manô!
obs. 3. Vai, Haddad!
foto: Berinjota
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
sem pretensões
A máquina de costura da vida cruzando os fios. A gente só acha que as coisas estão se movimentando quando emitem sons, mas neste mês de setembro eu aprendi que o silêncio talvez seja a mais barulhenta de todas as manifestações.
Na foto, trabalhador da Cardeal Arcoverde na primeira segunda de agosto.
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