quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sabedoria santiaguina


"É isso. Vou fazer minha respiração".

foto: paula desgualdo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

prazer, eu moro na lulilândia


Lulina diz em uma antiga entrevista que em suas músicas fala sobre ETs e tudo que vem à sua cabeça e pode parecer coisa de criança mas é o que eu sou. Por causa da suave seriedade de suas músicas, coisa rara, raríssima, consegue gritar sem levantar a voz, virar as costas sem sair do lugar. Brinca com seus próprios medos e desejos e o cotidiano como uma fada madrinha, casando a margarida do jardim com um girassol e transformando minhocas em habilidosas contadoras de histórias.

Amo Lulina.

Nós tocou muito no rádio da minha cabeça e acho Margarida tão deliciosamente excêntrica que tenho vontade de mostrá-la a todas as amigas e pedir sua atenção: você está reparando na letra? Meu Príncipe me deixa com vontade de sair correndo pelo campo cantando uma música brega, Balada do Paulista cola na língua igual bala de caramelo.

Ontem, num inesperado garage show de Lulina a dois quarteirões de casa, vendo seu sorriso arteiro, doce, gostoso, grande, entendi porque Lulina faz cócegas em mim. Ela me lembra que todos nós podemos ser absolutamente...loucos. Ou melhor: louco é quem se esquece que pode ver neve na rua em um dia de 34ºC ou virar um ninja famoso.

Do You Remember, Laura?

Quando era pequeno
Acordava pra saber
Se os brinquedos
Estavam se mexendo

E todo dia
O sol parecia ser
De neve por dentro

Quando eu colocava
Os meus pés no chão
Ficava frio até o meu cabelo
Da minha janela dava para ver
O mundo inteiro

Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol
Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol aparecer

Quando era pequeno
Achava que era grande
Quando eu cresci
Eu encolhi

Eu era invisível
Era ninja e famoso
E todas as batalhas
Eu venci

Nada me assustava
E tudo que eu gostava
Era comer biscoito, ver TV e brincar de Playmobil
Minha avó fazia papa de farinha láctea
E o dia terminava quando eu fechava os olhos pra dormir

Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol
Eu juro que eu vi um ET
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol aparecer


*Do You Remember, Laura?, de Lulina

Foto: achei aqui

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

nacked-potatoes




Ganhei um saco de batatas porque parei o carro na estrada de terra e fiquei observando os homens trabalhando. Bueno Brandão, a cidade mais caipira de Minas Gerais. Um deles gritou "você quer batata?", e eu jamais ia querer batata, mas respondi "quero!". Corri para buscá-las e coloquei-as naturalmente no porta-malas mais que abarrotado de lembranças, e voltei para casa. Não tinha ideia do que faria com elas, e ainda não tenho. Mas não se pode recusar batatas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A história do homem que conseguia organizar tudo - parte I


Era uma vez um homem que conseguia organizar tudo. Acordava sempre meia hora antes do despertador, que já estava programado duas horas antes do horário em que sairia de casa. Levantava perfeitamente são, esticava os lençóis, abria a janela, dobrava o pijama, colocava a água para ferver no fogão. Não lhe doíam as costas, não bocejava sem parar nem desejava que aquele dia fosse outro senão aquele dia. Tomava banho ouvindo o disco Live at Birdland, de John Pizzarelli. Depois, sentava-se no computador para ler as notícias do dia em cinco sites diferentes, um de cada continente. Seu fundo de tela era uma foto da avó no Maciço de Baturité, Ceará. Telefonava para Maria dos Milagres pontualmente às 9hs, geralmente segundos após fixar a mente no maciço livre de ícones e notícias, enquanto abaixava a tela do notebook e apertava off. A avó lhe falava sobre filhotes de gatos, tapiocas e saudade. O próximo passo era engraxar os sapatos, ajustar o cinto e passar brilhantina Tabu no cabelo. O café tomava sempre morno, adoçado com mel de Jataí em vez de açúcar e acompanhado de meio pão francês sem miolo, como o pai lhe havia ensinado (comprava o pão na noite anterior). Imediatamente após comer catava as migalhas de pão que caíam no chão, e não deixava a manteiga com aquele aspecto disforme, passava repetidas vezes a faca sobre o naco que ficava sedoso como um golfinho. Regava as plantas, varria a casa e verificava se estava faltando algo na geladeira. Antes de sair, riscava com um X o dia de hoje no calendário. Era comum, dando a última voltinha na fechadura com a chave, sentir um lampejo de orgulho por ser um homem que conseguia organizar tudo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

leite com um pingo de café


"amor não é abstrato nem grande. é prático e pequeno. amor é quer um leite?"


*Noemi, do blog Quando nada está acontecendo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

verde


Decidi que, em dezembro, vou andar mais, nem que seja na pracinha perto de casa, nem que seja devagar - "para se ter vida longa, é preciso viver devagar".
Geralmente, quando estou escrevendo um post, parece que minha cabeça vira um ouriço de ideias, um espinho para cada lado, e é difícil escolher entre um ou outro assunto.
Quando você volta de uma viagem solitária de quase 20 dias, é como se sua cabeça fosse não um, mas milhares de ouriços!
Tenho vontade de contar da tarde em que comi coalhada com calda de goiabada no Seu Peschiera, em Monte Alegre do Sul. Da minha amizade efêmera com o pequeno Giovanni, neto do Nono Rouxinolli (a irmã nasceu, ele olhou para ela e disse aos pais: o nome dela tem que ser igual ao meu, Giovanna. e não é que foi?). Da aula grátis de disciplina dada pelo holandês Jan Eltink (se diz Ian), que há uns 60 anos desembarcou no Brasil em uma "terra esgotada" e, junto com outros holandeses, transformou-a numa espécie de Disneylândia das Flores.
Em Bueno Brandão - ou melhor, Campo Místico - depois de relutar um pouco contra o frio da água, me joguei na Cachoeira da Cascavel e tomei um dos melhores banhos da minha vida.
As pessoas se assustam, não é mesmo, com as coisas que de repente se apresentam para nós como as melhores de nossas vidas. Parece que o melhor da vida precisa ficar guardado numa caixinha de joias. E, sendo assim, você só pode usar essa joia em ocasiões especiais, por poucas horas.
Prefiro pensar que todo dia é especial, que eu posso desfilar com a aliança que foi de minha nonna num dia de trabalho em Maragogi. E, se por algum motivo perdê-la, foi porque tive de coragem de usar.
Sim, todos os dias são especiais, só que a rotina cansa. Acordar, jantar, pagar contas, temer contas, escovar os dentes, cansa. Mas se eu posso respirar tranquilamente esse ar que puxo para dentro e solto para fora...basta.
Por isso, já não preciso que você venha com pressa - nem se arrastando -, querido 2011. Chegue quando puder.
Neste dezembro, mês em que os ânimos costumam se exaltar, eu só quero caminhar...
Mesmo que seja com esses sapatos novos lindos tão vagabundos que no terceiro dia de uso rasgaram e neste momento só estão em meus pés graças a um rolo de durex que estava na bolsa. Me deixaram na mão no meio do evento vinífero, abriram a boca e me fizeram ter receio de parecer o pateta. Será que esse medo adolescente de parecer ridículo nos perseguirá fogos de artifício após fogos de artifício?
Ah, o ouriço de ideias...
Em Holambra, entrei nesses mercados enlouquecedores com flores de todos os tipos, mudas, vasos gigantes, tudo a preços muito convidativos. Normalmente, encheria o carrinho de flores amarelas e rosas, mas eu só conseguia chegar perto de...plantas. Saí de Holambra levando comigo somente elas, acomodadas pelo carregador no banco do passageiro: “Você vai bem-acompanhada” - era tudo o que eu precisava ouvir.
Fiquei espantada: como, em um lugar onde eu poderia ter todas as flores que sempre sonhei, orquídeas, lírios, gérberas, não escolhi nem umazinha?
É que, de repente, em meio àquelas flores todas, percebi como são bonitas as plantas. Olha o formato daquela folha, olha a cor amarelada daquela ali, o que é isso, um pinheirinho de Natal estilo bonsai?
Acho que a beleza incontestável de uma tulipa é tão fácil que esquecemos como é precioso um vasinho de azaleia.
E, principalmente, esquecemos que não tem problema se você preferir ser a azaleia.