quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sabedoria santiaguina


"É isso. Vou fazer minha respiração".

foto: paula desgualdo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

prazer, eu moro na lulilândia


Lulina diz em uma antiga entrevista que em suas músicas fala sobre ETs e tudo que vem à sua cabeça e pode parecer coisa de criança mas é o que eu sou. Por causa da suave seriedade de suas músicas, coisa rara, raríssima, consegue gritar sem levantar a voz, virar as costas sem sair do lugar. Brinca com seus próprios medos e desejos e o cotidiano como uma fada madrinha, casando a margarida do jardim com um girassol e transformando minhocas em habilidosas contadoras de histórias.

Amo Lulina.

Nós tocou muito no rádio da minha cabeça e acho Margarida tão deliciosamente excêntrica que tenho vontade de mostrá-la a todas as amigas e pedir sua atenção: você está reparando na letra? Meu Príncipe me deixa com vontade de sair correndo pelo campo cantando uma música brega, Balada do Paulista cola na língua igual bala de caramelo.

Ontem, num inesperado garage show de Lulina a dois quarteirões de casa, vendo seu sorriso arteiro, doce, gostoso, grande, entendi porque Lulina faz cócegas em mim. Ela me lembra que todos nós podemos ser absolutamente...loucos. Ou melhor: louco é quem se esquece que pode ver neve na rua em um dia de 34ºC ou virar um ninja famoso.

Do You Remember, Laura?

Quando era pequeno
Acordava pra saber
Se os brinquedos
Estavam se mexendo

E todo dia
O sol parecia ser
De neve por dentro

Quando eu colocava
Os meus pés no chão
Ficava frio até o meu cabelo
Da minha janela dava para ver
O mundo inteiro

Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol
Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol aparecer

Quando era pequeno
Achava que era grande
Quando eu cresci
Eu encolhi

Eu era invisível
Era ninja e famoso
E todas as batalhas
Eu venci

Nada me assustava
E tudo que eu gostava
Era comer biscoito, ver TV e brincar de Playmobil
Minha avó fazia papa de farinha láctea
E o dia terminava quando eu fechava os olhos pra dormir

Eu juro que eu vi um cometa
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol
Eu juro que eu vi um ET
Bater na minha janela
Eu juro que tinha neve na minha rua
Antes do sol aparecer


*Do You Remember, Laura?, de Lulina

Foto: achei aqui

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

nacked-potatoes




Ganhei um saco de batatas porque parei o carro na estrada de terra e fiquei observando os homens trabalhando. Bueno Brandão, a cidade mais caipira de Minas Gerais. Um deles gritou "você quer batata?", e eu jamais ia querer batata, mas respondi "quero!". Corri para buscá-las e coloquei-as naturalmente no porta-malas mais que abarrotado de lembranças, e voltei para casa. Não tinha ideia do que faria com elas, e ainda não tenho. Mas não se pode recusar batatas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A história do homem que conseguia organizar tudo - parte I


Era uma vez um homem que conseguia organizar tudo. Acordava sempre meia hora antes do despertador, que já estava programado duas horas antes do horário em que sairia de casa. Levantava perfeitamente são, esticava os lençóis, abria a janela, dobrava o pijama, colocava a água para ferver no fogão. Não lhe doíam as costas, não bocejava sem parar nem desejava que aquele dia fosse outro senão aquele dia. Tomava banho ouvindo o disco Live at Birdland, de John Pizzarelli. Depois, sentava-se no computador para ler as notícias do dia em cinco sites diferentes, um de cada continente. Seu fundo de tela era uma foto da avó no Maciço de Baturité, Ceará. Telefonava para Maria dos Milagres pontualmente às 9hs, geralmente segundos após fixar a mente no maciço livre de ícones e notícias, enquanto abaixava a tela do notebook e apertava off. A avó lhe falava sobre filhotes de gatos, tapiocas e saudade. O próximo passo era engraxar os sapatos, ajustar o cinto e passar brilhantina Tabu no cabelo. O café tomava sempre morno, adoçado com mel de Jataí em vez de açúcar e acompanhado de meio pão francês sem miolo, como o pai lhe havia ensinado (comprava o pão na noite anterior). Imediatamente após comer catava as migalhas de pão que caíam no chão, e não deixava a manteiga com aquele aspecto disforme, passava repetidas vezes a faca sobre o naco que ficava sedoso como um golfinho. Regava as plantas, varria a casa e verificava se estava faltando algo na geladeira. Antes de sair, riscava com um X o dia de hoje no calendário. Era comum, dando a última voltinha na fechadura com a chave, sentir um lampejo de orgulho por ser um homem que conseguia organizar tudo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

leite com um pingo de café


"amor não é abstrato nem grande. é prático e pequeno. amor é quer um leite?"


*Noemi, do blog Quando nada está acontecendo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

verde


Decidi que, em dezembro, vou andar mais, nem que seja na pracinha perto de casa, nem que seja devagar - "para se ter vida longa, é preciso viver devagar".
Geralmente, quando estou escrevendo um post, parece que minha cabeça vira um ouriço de ideias, um espinho para cada lado, e é difícil escolher entre um ou outro assunto.
Quando você volta de uma viagem solitária de quase 20 dias, é como se sua cabeça fosse não um, mas milhares de ouriços!
Tenho vontade de contar da tarde em que comi coalhada com calda de goiabada no Seu Peschiera, em Monte Alegre do Sul. Da minha amizade efêmera com o pequeno Giovanni, neto do Nono Rouxinolli (a irmã nasceu, ele olhou para ela e disse aos pais: o nome dela tem que ser igual ao meu, Giovanna. e não é que foi?). Da aula grátis de disciplina dada pelo holandês Jan Eltink (se diz Ian), que há uns 60 anos desembarcou no Brasil em uma "terra esgotada" e, junto com outros holandeses, transformou-a numa espécie de Disneylândia das Flores.
Em Bueno Brandão - ou melhor, Campo Místico - depois de relutar um pouco contra o frio da água, me joguei na Cachoeira da Cascavel e tomei um dos melhores banhos da minha vida.
As pessoas se assustam, não é mesmo, com as coisas que de repente se apresentam para nós como as melhores de nossas vidas. Parece que o melhor da vida precisa ficar guardado numa caixinha de joias. E, sendo assim, você só pode usar essa joia em ocasiões especiais, por poucas horas.
Prefiro pensar que todo dia é especial, que eu posso desfilar com a aliança que foi de minha nonna num dia de trabalho em Maragogi. E, se por algum motivo perdê-la, foi porque tive de coragem de usar.
Sim, todos os dias são especiais, só que a rotina cansa. Acordar, jantar, pagar contas, temer contas, escovar os dentes, cansa. Mas se eu posso respirar tranquilamente esse ar que puxo para dentro e solto para fora...basta.
Por isso, já não preciso que você venha com pressa - nem se arrastando -, querido 2011. Chegue quando puder.
Neste dezembro, mês em que os ânimos costumam se exaltar, eu só quero caminhar...
Mesmo que seja com esses sapatos novos lindos tão vagabundos que no terceiro dia de uso rasgaram e neste momento só estão em meus pés graças a um rolo de durex que estava na bolsa. Me deixaram na mão no meio do evento vinífero, abriram a boca e me fizeram ter receio de parecer o pateta. Será que esse medo adolescente de parecer ridículo nos perseguirá fogos de artifício após fogos de artifício?
Ah, o ouriço de ideias...
Em Holambra, entrei nesses mercados enlouquecedores com flores de todos os tipos, mudas, vasos gigantes, tudo a preços muito convidativos. Normalmente, encheria o carrinho de flores amarelas e rosas, mas eu só conseguia chegar perto de...plantas. Saí de Holambra levando comigo somente elas, acomodadas pelo carregador no banco do passageiro: “Você vai bem-acompanhada” - era tudo o que eu precisava ouvir.
Fiquei espantada: como, em um lugar onde eu poderia ter todas as flores que sempre sonhei, orquídeas, lírios, gérberas, não escolhi nem umazinha?
É que, de repente, em meio àquelas flores todas, percebi como são bonitas as plantas. Olha o formato daquela folha, olha a cor amarelada daquela ali, o que é isso, um pinheirinho de Natal estilo bonsai?
Acho que a beleza incontestável de uma tulipa é tão fácil que esquecemos como é precioso um vasinho de azaleia.
E, principalmente, esquecemos que não tem problema se você preferir ser a azaleia.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

são as águas de lindoia


O recepcionista reconheceu o sobrenome. "seu avô já não ficou hospedado aqui?". sim, meu avô, josé. não pareceu reconhecer o nome. giuseppe, talvez? "sim!"
engraçado como algumas lembranças se cristalizam na gente como se não passássemos todos de um monte de açúcar na panela, derretendo até virar caramelo
não via muito mais meu nonno nos últimos anos, mas penso nele com uma frequência e lembro de alguns detalhes tão pequenos
sinto uma saudade que não dói, e me pergunto se algum dia ouvirei de novo o seu "djova", verei de novo o olhar do meu pai aconchegado pela segurança de ser incondicionalmente amado por alguém
estou há dias cercada de velhinhos o tempo todo e eles me parecem um bocado cansados, com seus banhos tomados e óculos escuros
hoje um senhor ficou parado na frente do hotel, olhando para a praça como se estivesse olhando para o fundo de uma garrafa de vidro
quando será que perdemos a alegria e nos concentramos só em amarrar os sapatos?
a alegria do nonno só foi aspirada no fim e, mesmo assim - isso não me sai da cabeça - minutos antes de morrer ele pediu a uma das filhas:
me traz um chocolate?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

let's go


"para onde
nos atrai
o azul?"


João Guimarães Rosa

terça-feira, 9 de novembro de 2010

mãos na estrada


América gosta tanto de viajar que queria ter se casado com um caminhoneiro.
Ela, o irmão e a mãe já foram juntos para Poços de Caldas, Goiás, Águas de Lindoia. "Agora minha irmã cismou que quer ir pra Piracicaba, por causa da música do Sérgio Reis: 'O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora...'", diz a manicure. A moça ao lado pintando as unhas, depois de muita vontade guardada, pela primeira vez de azul. América acha os hotéis indicados nos guias de turismo muito caros, por isso vai ela mesma buscar onde ficar, batendo de porta em porta. "Já visitei com meu irmão o Sesc de Poços de Caldas, mas achamos que tinha muita escada, fomos parar numa pousada que é uma casinha, os quartos dão para um quintal maravilhoso, e R$ 23 a diária!". Gosta tanto de dormir fora de casa que não é raro sair do Morumbi, onde mora, e pernoitar em um hotel em outro canto da cidade. Tipo: se tem um compromisso no Ipiranga, procura algo por ali e aproveita o tempo que passaria no trânsito para conhecer melhor o bairro. Dessa maneira, jura que já encontrou uma porção de ótimos hotéis. Sua próxima meta é achar um lugar bacana (e baratinho) no centro de São Paulo. "Outro dia fui lá dar uma olhada, mas não gostei de nada...quero dormir no centro em um sábado para acordar cedinho no dia seguinte e participar da caminhada, sabe o que é a caminhada, né?".

Foto: Lila Pink

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

o almoço de segunda


"Será que agora o calor veio para ficar?", eu pensei alto, o vento quente batendo no rosto. O taxista respondeu um "não sei" seco. Na hora de pagar a corrida de R$ 5,90, tirei a nota de R$ 50 e ele a recusou. "Você não tem trocado?". Não tenho, mas o senhor, que é motorista de táxi, deveria ter, certo? Sacou o maço de notas do bolso: "Eu tenho, mas não quero te dar". Surpreendentemente calma, eu sugeri: "Sem problemas, eu desço até o restaurante e troco". Ele encerrou a história com um enxotamento verbal: "Não, não vou te esperar trocar. Desce do carro, não quero esses seis reais". Ainda insisti: "Mas, espera, qual o nome do senhor? Posso levar o dinheiro no seu ponto e...". Nessa hora eu já estava fora do carro, pensando no tanto de coisas que eu poderia dizer, mas só consegui mirá-lo de soslaio e expressar: "Meu deus, leve a vida mais leve...". Ele finalizou: "Por que você não traz uma nota de 100 da próxima vez?".
Entrei no bistrô me sentindo a banana da xepa. Fui ao banheiro, senti uma dor na bexiga e minha cabeça tentava entender o que tinha acontecido, por que, o que eu deveria ter falado para aquele homem, eu agi certo? Olhei meu rosto cansado e suado no espelho e retoquei a maquiagem: posso ficar nessa energia ruim, ou posso seguir. Eu quero seguir. Antigamente tremia por dentro e corava por fora nessas horas, hoje parece que sou transportada para um espaço zen.
Saí do banheiro e, esperando meu colega de almoço chegar, parei em frente a uma lousa e meio por inércia comecei a ler o texto que tinham escrito ali. Era mais ou menos assim: "Todas as manhãs, um homem era maltratado pelos funcionários da padaria do bairro. Em vez de se enfurecer, dirigia-se a todos com uma educação de lorde e distribuía sorrisos. Um dia, um amigo questionou sua atitude e ele explicou: 'eu não vou deixar que eles decidam meu estado de espírito".

Foto: Ellen von Unwerth

O tocador de pife


Sentado na cadeira de balanço na sala do casarão, o tocador de pife Alfredo Miranda observa em silêncio a mulher, Terezinha, vender doces e licores. Ela, que nunca tira um olho dele, senta no braço de sua poltrona e contempla-o com ternura, lamentando que esteja doente. “Não reconhece mais os amigos e os filhos. Mas...” – leva o pife à boca de Alfredo, que em um sopro inicia uma canção - “...ele não esquece as músicas”. Daí em diante, para regozijo dos presentes, a visita ganha trilha sonora – Alfredo engrena no pife e toca uma sucessão de canções com vigor de criança. Nascido em 1916 em Viçosa do Ceará (interior do Ceará, a uns 150 km da turística vila de Jericoacoara), cresceu na roça e foi apresentado à flauta por um amigo curumim. Aos seis anos, fez sua primeira composição, um chorinho. Quando a saúde não estava debilitada, Alfredo costumava fabricar pifes a partir da taboca, uma espécie de bambu – supersticioso, sempre nos dias de lua cheia, em meses sem “r”. Além de canções próprias, a mulher conta que adorava reproduzir as músicas dos anos 40, a “era de ouro” do rádio. Na hora da despedida, que Terezinha quer adiar ao máximo, uma inesperada surpresa: na sacola, além de licores e biscoitos caseiros, o CD Ao pife, por Alfredo Miranda.

*Íntegra do texto publicado no Guia Brasil 2011

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

da série respostas deliciosas

— Como você faz pra tirar o cheiro de alho da mão? Eu passo detergente, sabonete líquido, álcool em gel...nada funciona, fico o dia todo lembrando que piquei alho. Hem, amor, como você faz?
— Ah, eu só não penso nisso.

(traduzindo: como ele não pensa no cheiro, ele não sente o cheiro. e não é que faz sentido?)

presenciando


Porque veio com uma boa reserva de paciência e alegria
deus, enquanto bosquejava, decidiu:
Não entenderá os números e nada que não se possa dobrar ou amassar.
Terá dificuldade em executar atividades básicas como recortar em linha reta ou abrir uma lata de leite condensado.
Na mesma proporção em que conseguirá sonhar, vai cismar (pois quem vive no delírio não aceita que um cacho de uva é somente um cacho de uva).
Vai ter de aprender a diferença entre sentir com a mente e sentir profundamente.
Vai, muitas vezes, se achar o pior dos demônios: "A freira de olhos baixos esperava o ônibus, sua roupa semicanônica, nem curta nem comprida, bege-e-branca, estúrdio véu na cabeça. Glória sentiu raiva da freira. Por penitência, puxou conversa com ela (...)".
Vai morrer diariamente em sonhos, filmes, beijos, silêncios, conversas e cigarros. "O que era a morte? Às vezes o corriqueiro, às vezes o absoluto terrível."
Num dia, olhando os sapatos, vai concluir que "a vida é servidão". E vai gostar ainda mais da frase porque sabe que tem algo nela que ainda não entende bem.
Noutro, porém, olhando as unhas vermelhas dos pés brotando dos novos sapatos verdes, vai concluir que a vida às vezes tem a medida exata de um abraço.
Não vai querer ser rica, não vai querer ser famosa
Vai querer apenas o que também queria Glória: "Comer comendo, namorar namorando e até mesmo colar colando, confundida ela própria com os objetos de suas ações". Em uma palavra (que no gerúndio fica ainda mais bonita): presença.

*Texto com citações de Cacos para um Vitral, de Adélia Prado.

Imagem: Betsy Walton

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

um japonês quebrou minhas pernas


Não sou avessa às novas tecnologias – isso vale para comida. Acho ótimo que existam pessoas como Hervé This, Ferran Adrià e Alex Atala, malabaristas cerebrais das panelas e dos tubos de ensaio. Mas essa cozinha, chamada de molecular ou criativa, não me emociona. Lembro de uma caminhada pela rua João Tibiriçá com o editor-chefe da revista americana Saveur, James Oseland. Eu perguntava “gostou desse restaurante, e daquele, e desse?”, ele fazia uma cara blasé e respondia só “gostei”. Mas nenhuma refeição, dizia, tinha sido boa como aquela preparada por sua sogra mineira (e se a resposta viesse mais tarde, possivelmente ganharia o complemento “e pela Neide Rigo”, onde almoçaríamos naquele dia). Noutra tarde, comemos um sorvete de doce de leite com queijo. Uma crítica gastronômica comentou “é bom, mas é muito doce”. E ele: “É muito doce e é muito bom!”. Tivemos conversas incríveis sobre comida & antropologia & família & pimentas. Ele voltou para o Brooklin e eu continuei catando os amendoins no caminho, com cada vez mais certeza: não existe nada mais sublime do que um prato de arroz, feijão e ovo. Eu sou de rapar goiabada do tacho, chupo manga e encho o dente de fiapo no meio da tarde escondida no banheiro da redação, amo o jeito como o fettuccine al dente com molho na medida certa corre até minha boca, acho que não existe cheiro melhor que o de alho refogando na panela e, se pudesse, comeria tapioca recheada de coco e leite condensado o dia inteiro. Até que um japonês chamado Yoshihiro Narisawa quebrou, anteontem, minhas pernas. Começou sua aula no evento da revista Prazeres da Mesa explicando – a chef Mari Hirata ia fazendo a tradução – que em seu país as quatro estações são bem definidas, por isso troca o cardápio todo a cada três meses. No telão, uma foto linda de árvores brancas de neve. A música de consultório de dentista ao fundo, o jeito como ia delicadamente e humildemente explicando seu trabalho, em japonês, eram poesia pura, só faltava moldura para virar um quadro do Goto Sumio. Narisawa se inspira em fotos para criar seus pratos: em uma fogueira com carvões em chamas enxerga um bife suculento todo polvilhado de cinzas de alho poró. Num inverno, trouxe um punhado de terra com algumas raízes para a cozinha e notou que com isso (e apenas isso) podia fazer uma sopa maravilhosa. No evento, tinha muito chef forçando a barra para ser sustentável, dizendo que evita cozinhar a vácuo no thermomix para economizar plástico. Devem ter ruborizado ao ouvir Narisawa. Ou deveriam. Ele realmente se preocupa, e é cada vez mais difícil encontrar pessoas que realmente...qualquer coisa. Narisawa não precisa se apoiar nas muletas da cozinha moderna - as espumas e as gelatinas. Saí daquela sala tonta de alegria, uma sopa de terra pode ser tão emocional como um prato de arroz, feijão e ovo. E como eu estava errada em pensar que podia morrer sem conhecer o Japão.

foto: Talita

terça-feira, 26 de outubro de 2010

um poema de amor


Ontem acidentalmente vi trechos do documentário Born Into This, sobre o Bukowski. Me deixou com vontade de ler coisas dele, e sempre que eu começo a ler coisas dele não paro mais. Num breve intervalo entre aquilo e isso, deu tempo de me embalar nesse love poem.

todas as mulheres
todos os beijos as
diferentes formas que amam e
falam e carecem.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

na maioria das vezes
as mulheres são muito
quentes elas me lembram
torrada com a manteiga
derretida
nela.

está estampado no
olhar: elas foram
tomadas elas foram
enganadas. eu nunca sei o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas eu apreciei suas variadas
camas
fumando cigarros
olhando para o
teto. não fui nocivo nem
desleal. apenas
um aprendiz.

eu sei que todas têm
pés e descalças elas andam pelo piso enquanto
eu olho suas modestas bundas no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.

algumas me dão laranjas e vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas deixa de fazer
sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outras
coisas; cada uma tem seus limites como eu tenho
limites e nós aprendemos
cada qual
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
algo como uma igreja
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto
e a carência eu tenho
aguentado eu tenho
aguentado.


Foto: J.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

bueiro na escadaria que desemboca na travessa tim maia


E no meio do caminho tinha uma escada,
e na escada tinha um bueiro,
e no bueiro tinha uma flor

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

seguimos


Acaba a bateria do celular recém-carregado e o despertador não toca. A cantoria menos intensa dos passarinhos e o barulho mais intenso dos carros não deixam dúvidas: são mais de sete. Desço correndo as escadas do metrô Vila Madalena para chegar a tempo de estar junto dela.
Deixo-o no trabalho e vou para casa. Na porta, descubro que esqueci as chaves. Volto para buscá-las e, no meio do caminho, a água Minalba 200 L que estava no banco traseiro explode e começa a molhar o carro todo descontroladamente. Seguro a garrafa vazando com a mão esquerda para fora da janela, como se fosse um cigarro, e um motoqueiro me olha sem piedade.
E o calor, esse calor no rosto que frita as bochechas, só atrapalha tudo!
Pego a chave, almoço, chego em casa, abro uma coca-cola e sento no sofá em frente ao computador. Vejo o copo tombar em câmera lenta nos fios e cair em cima da mesa, molhando a toalha florida de Curaçao, a mesa de madeira, o tapete bege de Pernambuco.
Procuro diligentemente por uma explicação nos sites de astrologia: a lua está vazia, saturno está causando? Susan Miller?
Recolho da sala o tapete (que eu queria mesmo lavar) e penso que talvez seja melhor esquecer tudo e fazer uma boa limpeza, balde cheio d'água, esfregão, cheiro de banho tomado.
A hera ficou simplesmente deslumbrante no xaxim.
Cresci cercada de mulheres puras.
Não é tão ruim assim comer mamão de sobremesa.
Mesmo trabalhando, passar a tarde em casa com esse vento no rosto, barulho de maritacas comendo mamão lá embaixo, é tudo de bom!
Seguimos?

Ilustração: Kristina, uma indicação da Aninha

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Attraversiamo?


É claro que é um filme apelativo, sem carne nem queijo, sem recheio, com chavões até a borda e frases superficiais de livro panfletário de auto-ajuda. Mas, além de ser uma delícia de assistir, por trás dessa coisa hollywoodiana toda de comer na Itália, rezar na Índia e amar em Bali, o filme tem um efeito terapêutico.

A protagonista, Liz Gilbert (Julia Roberts), quer o que todos nós queremos: encontrar sua paz. Para isso, engrena em uma viagem de um ano, seguindo à risca as previsões de um guru.

Uma das partes que mais gosto é aquela em que ela surta porque não consegue se livrar da angústia de não saber ao certo quem é e o que quer no mundo. Um cara sábio do templo indiano vira pra ela e diz: “Ah, você quer paz? Ninguém consegue a paz assim, só por querer. Tem que gramar muito”. Também adoro quando, na pizzaria napolitana, sua amiga se recusa a comer um pedaço de pura mussarela derretida e Liz se agita: “Eu vou comer, sabe por quê? Porque eu cansei de ter culpa. Cansei de ficar medindo meu corpo no chuveiro. Eu não tenho interesse em ser obesa, mas hoje eu vou comer o que quiser, sem culpa”. Eu também cansei de sentir culpa, uma banana pra culpa!

Em um fim de tarde, o mesmo amigo que aconselhou Liz no templo a leva a uma silenciosa cobertura de um prédio abandonado, e sutilmente ordena: “Só saia daí quando tiver se perdoado”. É bonito o jeito como ela pede perdão para o ex-marido. Acho que a gente se auto-penitencia tanto que nem reconhece mais quando o faz. Muitas angústias são na verdade resultado dessas culpazinhas peroladas que carregamos no pescoço.

Agora, a derradeira cena: depois de conquistar seu tão esperado equilíbrio interior, Liz se apaixona. O que pode ser mais desequilibrante do que estar apaixonado? Ela então recua e, para seu espanto, o guru de Bali discorda: “Mulher, viver o amor sem moderação também faz parte do equilíbrio”.

Como diria o camarada da diagramação do Estadão: “Que delícia!”

so light is her footfall


Uma vez, ela me falou: "Você é a criança. Vi isso muitas vezes no reiki. A jornalista, a mulher decidida e valente não tem nada a ver com esta criança." Sempre que eu olho uma criança perdida no meio dos adultos, eu me sinto em casa. Como essa menina, que estava sentada sozinha na praça de alimentação e eu fotografei com a câmera do celular, sem medo de borrar as unhas recém-pintadas de cor-de-rosa. "Você não pode tirar fotos aqui", me reprimiu a segurança. Ela nem imagina que fez com que eu muito alegremente me sentisse mais criança ainda.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

crônica de hoje


A linguagem oculta na cozinha

Por Nina Horta, na Folha de S. Paulo

Algumas coisas parecem tão fáceis e na verdade não são. Às vezes demoram uma vida para serem assimiladas. Comecei a me interessar por cozinha desde sempre. Primeiro para comer, depois para agradar e um dia encontrei um livro só de receitas e adotei o infeliz como guia. Era o Fanny Farmer, um clássico americano que já passou por tantas transformações que não conheço mais o monstro.
Era só sentar, ler e fazer um cardápio baseado nele. Escrever todos os ingredientes necessários e ir para o mercado. Lá, procurava coisa por coisa que o livro pedira, descia e subia escadas e ia cortando a listinha com Bic, frustrada quando alguma coisa não estava na época ou simplesmente não existia. Fanny Farmer era americana e eu, brasileira da gema, pequeno detalhe.
Atentem, 20 anos depois desse processo, 20 anos depois (experiências, viagens, lembranças, muitos livros), entrei no mercado e tive um insight. Consegui enxergar não a couve sozinha ou o camarão fresco, ou a batata do purê do dia, o A o B o C, mas a soma deles todos. Foi um instante raro. A mesma de quando consegui ler no jornal Casa Gato.
Rasguei a lista da Fannie Farmer. Descobri naquela hora, pasmem, depois de 20 anos de mercado quase diário, que só é possível entender os ingredientes e misturá-los quando fazem parte de um todo.
Uma só laranja não faz verão. É somente uma laranja mais ou menos burra. Agora, se no nosso repertório existe a calda de açúcar ela pode virar um doce e, perto do paio, é refrescante. Muito óbvio ou muito complicado?
Só conseguimos reunir as peças da comida em alguma coisa bem aceitável quando se aprende as técnicas básicas, quando se lê muito (melhor quando se vive muito), quando se tem olho vivo, língua curiosa, quando o erro é o melhor condutor, quando se quebra a cabeça misturando os ingredientes com muita obediência e outras vezes com liberdade total.

Quem se lembra do primeiro semestre da faculdade, quando o sociologês, o filosofês, o antropologês eram um obstáculo desolador, quase impossível de ser resolvido? E dois anos depois, deus-que-nos-perdoe dos jargões tão feios, falávamos felizes em epistemologia, doxa, duração, tergiversar, como se fosse a lista do supermercado?
Ou uma língua como o alemão que se apresenta como muralha e vai-se ver é a mais fácil de todas?
A linguagem oculta da cozinha também pode ser um obstáculo. É preciso estudá-la como estudamos qualquer outra matéria. Claro que alguns terão mais facilidade do que outros, alguns vão parecer que nasceram sabendo, alguns vão desistir e mudar de rumo, tudo igualzinho às outras disciplinas do vestibular. Estudo, experiência, memória, imaginação, abertura, prazer, ritmo, astúcia e a visão da comida como uma língua a se aprender e que devemos interpretar segundo nossas possibilidades e vivências.
E não é maravilhoso que não exista um cozinhês? Grande vantagem. Um bom feijão grosso todo mundo entende. Quase todo mundo.

Foto: Bianca Tucci

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

blue screen


Os comandos pararam de funcionar e a tela subitamente ficou azul, exibindo uma mensagem: “Um problema foi detectado”. É só reiniciar, pensei. Reiniciei e não deu certo. É só desligar, pensei. Desliguei e surgiu a mesma mensagem. O colega ao lado olhou de soslaio e suspirou: “Ai, a tela azul...”. O cabeludo sorridente lá do fundo explicou melhor: “É o que os americanos chamam de The Blue Screen of Death”. Joguei no Google e achei um verbete na Wikipédia confirmando: meu computador morreu. Em outros tempos ficaria desesperada, ou meio chateada, mas dessa vez só liguei no suporte e abri um chamado. E mudei de mesa. Lembrei da frase da Talita: “Se for pra morrer, que a morte seja gostosa, do jeito que der pra ser”. A TV mostra a perseguição surreal a um motorista na zona oeste de São Paulo, e eu penso que essa lua nova em Libra veio forte como um gole de uísque.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

biscoito da sorte


"A liberdade, quando começa a criar raízes, é uma planta de crescimento muito rápido."

Ilustração: Célia Medeiros de Araujo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

costa carvalho


Caminhando pelas ruas de Pinheiros, segurando a saia pra não voar, segurando a vontade de parar para comer um brigadeiro ou de simplesmente parar. Na porta de uma das casas sobreviventes no bairro de prédios a la Ruy Ohtake tem uma senhora. De gorro e malha daquelas gostosas que fazem a gente ter vontade de estar na casa da tia Célia em algum dia dos anos 90. Uma das mãos apoiada no portão, a outra solta, o olhar perdido na rua. A cena é tão bonita que quero registrá-la com a câmera do meu celular (e faz tanto tempo que eu não fotografo). "Posso?". Por quê?, ela quer saber. "Ah, eu sou fotógrafa, e queria fazer um retrato da senhora, que está bonita". Não, ela diz. Eu dou um sorriso e concluo, como que para não criar um mal estar: "Não gosta de fotos, né? Tudo bem...". Tudo bem nada, caramba, era só uma foto. Mas, espera, a pessoa tem direito de não querer, certo? Que vergonha ter recebido um "não", será que alguém viu? A cabeça vai à mil, e eu só saí para almoçar uma empadinha no Pirajá. Às vezes parece que a vida toda não passa de uma monólogo, como A Alma Imoral, de Clarice Niskier - só que sem ninguém na plateia.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

minhas lembranças suecas


Junho de 1994 – A seleção brasileira de futebol enfrenta a Suécia em uma ardida semi-final da Copa do Mundo. Romário faz um gol de cabeça para alívio de outras milhões de cabeças da América do Sul.

Julho de 1997 – (1) Estou em um acampamento em Cincinnati, Ohio, EUA, com cerca de 50 crianças do mundo todo. Sinto muita saudade de casa e choro todas as noites agarrada a meu hipopótamo de pelúcia e a um pequeno terço de madeira. No meu quarto tem uma menina sueca cujo apelido é Charlie que parece ter o dobro da minha idade e o dobro da minha altura. Tem sorriso de atriz do seriado teen Seven Eleven. Certa noite, eu ofereço uma Chocolícia que ela come como se nunca tivesse visto antes uma bolacha na vida. Fico muito feliz.

(2) No último dia do acampamento, as crianças trocam entre si roupas típicas de seus países que usaram durante a chamada “noite nacional” – cada grupinho tinha um dia para mostrar aos outros um pouco de sua cultura, e isso significava basicamente preparar alguma comida e botar pra tocar alguma música (os dinamarqueses serviram uma bala horrível e a monitora do grupo passou com um lixão pra todo mundo cuspir fora). Eu e uma menina sueca loira, magra e inexpressiva trocamos nossas roupas, mas ela não me dá a camisa branca que usa por baixo do vestido azul e amarelo. Eu digo que sem isso pego minha roupa de frevo de volta, e destrocamos. Ela fica muito emburrada e eu troco minha roupa por uma muito mais bonita - a da menina norueguesa.

Setembro de 2010 – (1) Vou ver Anna Von Hausswolff tocar teclado na choperia do Sesc Pompeia. A menina, loira branca, está vermelha e tem uma voz de assustar crocodilos e espantar urubus. É das mais potentes que já ouvi. Acaba o show e ela vem ao nosso lado, escoltada por sua dupla de músicos, assistir à próxima apresentação. Tem menos de 1,60 de altura, usa shorts de surfista e, ele tinha razão: é absurdamente linda, carrega nos olhos o sol e a lua.

(2) As gêmeas Miriam e Johanna, do Taxi Taxi!, deixam o público embasbacado no teatro de duas plateias do Sesc Pompeia. Johanna canta com a garganta, o peito, o nariz, as pernas tortas. Sua guitarra Gibson dourada é maravilhosa. A irmã tem um cabelo corajoso, é magrinha e corcunda, eu poderia ficar ouvindo sua voz a noite toda, toca piano e ajuda Johanna a ter auto-confiança através de piscadelas e batidas de pé. Não sei definir a música dessas fadas suecas, só sei que assim como a Stacey Kent elas também conseguem vertiginosamente derreter icebergs (mesmo que não faça mais tanto frio na Escandinávia).

Foto: Anna, por Gary Landström

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

cartela de sonhos


Hoje eu fui para Buenos Aires passar uma semana assistindo aulas em uma escola pública. As pessoas não entendiam por que eu tinha ido lá, afinal já era formada, e havia boas escolas particulares em Buenos Aires. Mas eu me sentia tão bem sentada naquela sala, com aqueles alunos. Por quê só uma semana?”. “Porque não tenho dinheiro para ficar mais”. O único problema era a localização da escola. Ficava num canto escondido, longe do alcance das linhas de ônibus. Eu quase fui atropelada enquanto atravessava uma avenida em que as duas vias iam para a mesma direção. O guarda gritou: “Pare, pare!”, eu fiquei meio envergonhada, mas fui caminhando entre os carros e cheguei do lado de lá.

Ilustra: Leão de Friedensreich Hundertwasser

"eu hoje acordei pensando
num sonho que eu tive à noite
sentei-me na cama para pensar
no sonho que tive
no sonho que tive

sonhei que entrei no quintal do vizinho e plantei uma flor
no dia seguinte ele estava sorrindo
dizendo que a primavera chegou"


Roberto Carlos

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Y...


Ilustração: Julieta Arroquy

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

em tempos de primavera


Eu e a Rê cruzamos com essas mudas largadas numa calçada de Pinheiros. Fiquei fascinada. Árvores que vieram prontas. Serão plantadas e ficarão décadas ali, alguém um dia vai se curvar debaixo delas para aproveitar sua sombra ou fumar um cigarro. Tudo me pareceu tão simples.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

as notas que eu aprendi


Tia Arlete era miúda, elegante, tinha cabelos brancos macios, corte joãozinho e uma boca igual a da Renata Sorrah. Eu secretamente ria puxando os dois cantos da minha boca, imitando a dela, em frente ao espelho.

Morava num sobrado nos Jardins, numa curva perto da Igreja São José. Eu a visitava uma ou duas vezes por semana, quando sentávamos no velho piano marrom com as teclas amareladas e juntas tocávamos do-ré-mi-fá.

Era uma sala escura, possivelmente vinho, com móveis muito antigos. O marido da tia Arlete andava em uma cadeira de rodas e eu tinha medo dele. De vez em quando ele aparecia durante a aula, ou chamava por ela lá da sala onde eu nunca entrei.

Ela me olhava, emocionada, no meio de alguma música e dizia: "Veja como eu fiquei arrepiada...", apontando os pêlos do braço. Só que eu não sabia o que era estar arrepiada, então concluía que ela gostava de mim.

Gostava tanto que me chamava para participar de recitais em que só reunia seus alunos adultos. Eu chegava toda arrumadinha, o cabelo lambido de gel preso em um rabo de cavalo, e a tia Arlete fazia questão de dizer, em voz alta: "Pessoal, essa aqui é a Giovanna". Eu comia muito bis.

Era uma delícia tocar piano. Ela me deixava seguir por onde eu quisesse, ensinava com ternura, sabia que o estímulo mora numa casinha de sapê e é assustadiço como gato recém-nascido. Aos domingos, na casa da nonna, a primeira coisa a fazer era abrir seu piano envernizado, bem diferente do da tia Arlete, e tocar "tãnã-tãtã-tãnã-tãtã-tãnã-to-non-tãnã-to-non...".

Quando chegou a hora de aprender as notas musicais, me irritei com o piano. Não sabia desenhá-las, tia Arlete me fazia refazer uma dezena de vezes aquela maldita clave de sol (que nunca saía perfeita). Me irritavam até os nomes, sustenido, dó-maior. Para mim, números e símbolos não tinham nada a ver com música. Não queria aprender.

Devo ter enchido tanto minha mãe que um dia ela cedeu: certo, não quer mais, largue as aulas de piano.

Não tive coragem de ligar para a tia Arlete e pedir desculpa. Eu sabia que era importante para ela acreditar que eu pudesse ser uma pianista, embora, na verdade, eu não tivesse talento. Nem mesmo dedo fino.

Um tempo depois, virou moda tocar teclado. As amigas tinham teclados em casa, eu mesma acabei ganhando um, mas só servia para apertar o botão azul que fazia tocar Happy Birthday. Eu achava que o teclado era um sub-piano e, em minha maledicência infantil, julgava minhas amigas pobres coitadas que não conheciam a verdadeira música.

Durante anos, passei em frente à sua casa todos os dias - estava no caminho entre a minha casa e a escola. Na verdade, até hoje passo por ali, mas agora não tem mais o sobradinho. Ele foi engolido junto com uma porção de outros e virou mais uma mansão neoclássica.

Foto: Amarynth Sichel, via flickr

o lobo


Estávamos no meio do mato, sentados de perna-de-índio em uma tenda. Fazia muito calor porque dentro dela havia um buraco e dentro desse buraco eram colocadas pedras quentes. Retiradas incandescentes da fogueira em frente à tenda, brilhantes como olharzinho de criança. Uma mulher derramava um balde cheio de água com ervas por cima das pedras, então dentro da tenda formava-se uma espécie de sauna muito cheirosa. Por que aquelas pessoas estavam presas ali? Todas cantavam muito alto e pareciam felizes, embora às vezes chorassem. Foi quando de repente se fez um silêncio digno da cor branca e, estando a porta da tenda semi-aberta, se ouviu um garotinho lá fora dizendo justamente o que a mulher precisava ouvir: "Eu não tenho medo do lobo, sabe por quê? Porque ele é desse tamaninho aqui, ó". O lobo, menina morena da pele preta, é do tamanho que a gente quiser.

Foto: mademoiselle Piuí

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

encosta aqui


Foto: Tavi Williams, do ótimo blog Style Rookie, uma dica de @Luiz_Horta

terça-feira, 14 de setembro de 2010

és-não-és


Quando você mete os dedos na bola pesada, que segue firme pela pista de boliche em direção aos pinos, mas ela muda de curso e corre pela lateral esquerda. Quando o pára-quedas abre e incha no meio do parque, só que falta vento e ele murcha. Quando a criança pedala pela primeira vez a bicicleta sem rodinha e parece que nunca mais vai cair, mas cai. Quando o bolo está no ponto, cheiroso e lindo, e de repente queima. Quando depois de duas ou três apontadas o lápis está afiado, e a ponta quebra na derradeira rodadinha. Quando a porta do metrô fecha no último segundo, quando não tem mais manteiga e ainda tem pão quente e tem fome, quando a vendedora acha um tamanco de madeira 37, mas não é preto, é creme.
Vinicius e Toquinho deveriam cantar assim: "O futuro do pretérito é uma astronave que tentamos pilotar...".

Foto: Nilton Fukuda

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

comer, rezar e amar


Não cresci comendo comida feita pelas mãos de pai e de mãe. Nunca vi minha mãe tirar um bolo do forno ou meu pai picar uma cebola. Mas isso não me impediu de colecionar inúmeras memórias amorosas à mesa: a banana com açúcar que o meu pai preparava pra gente depois do almoço, a limonada fresca, o pão francês com peito de peru que minha mãe trazia da padaria para o lanche da tarde nos fins de semana. Um dia, quando trabalhava no caderno de gastronomia de um jornal, entrei numa crise dessas de 3 minutos por não ter pais cozinheiros, mas minha prima disse: “Você tá de brincadeira? Vocês todos lá na sua casa têm uma relação muito forte com comida”. É verdade. Aí ele apareceu, ele que vem de uma família de cozinheiros espetaculares, mulheres que transformam rabada no prato mais chique do mundo, homens que grelham cordeiro em uma churrasqueira improvisada deixando a carne mais crocante e mais suculenta que muitos bistrôs de São Paulo. Ele não congela nem requenta coisa alguma, tem um paladar tão apurado que é capaz de adivinhar quanto tempo uma carne ficou congelada na primeira garfada. Sabe escolher berinjelas. Outro dia, eu trouxe uma jaca mole do supermercado e, depois que eu chupei a fruta (pela qual tenho adoração), ele cozinhou as sementes – ficam macias como batatas, mas amendoadas como castanhas portuguesas. Comemos sem acompanhamentos, de pé, na cozinha. Ele faz uma simples ervilha torta frita parecer um diabo de um prato sofisticado. Cresceu sem saber o que era uma lasanha pré-pronta, tomando sopa pelando de broto de abóbora feita com maestria pela mãe. Viciou em comida fresca. Por isso, lá em casa, no congelador só entra sorvete. Vejo-o virando os camarões na frigideira, abrindo as janelas para o cheiro de manteiga e alho não se espalhar pela casa, monitorando as panelas todas, e lembro de esguelha de uma frase da M.F.K. Fisher sobre restaurantes, em Um Alfabeto para Gourmets. Me marcou justamente porque, na época, me soou estranha. Algo a respeito do verdadeiro sofrimento que era ter de comer fora de casa.

escudo


Quando um gesto indelicado me incomoda, eu faço um esforço para pensar em quantas pessoas e em quantas coisas delicadas existem por aí. Que há muito mais gente legal e coisa legal do que gente chata e coisa chata. A borracha em forma de coração que cobre o ralo do banheiro, os ovos fritos com pimenta do reino de manhã, o chão da Marginal Pinheiros manchado de amoras, o livro que ensina crianças a fazer origamis, a moça do banheiro que sempre fala bom dia e às vezes vem com flores no cabelo, a orquídea da tia e a alegria da menina dele ao reconhecer a orquídea, a borboleta dourada que se deslocou sozinha da tiara e virou pingente de colar, a cantora Stacey Kent rindo de si mesma no palco, o e-mail feliz da irmã contando que vai passear na região dos lagos chilenos. Para cada indelicadeza existem 50 mil delicadezas. É o meu míssil Exocet.

Foto: Vivi Favery

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Coisas bregas que eu adoro (e faço)


Meias coloridas grossas para fora da botina
(e botina, a legítima de Tatuí)
Tamancos com salto de madeira
Soltar bolhas de sabão em casa para atrair energias positivas
Voz de nenê com o namorado
Fumar com as unhas pintadas de vermelho
Me emocionar com taxistas.
Escrever que alguma coisa é a versão 2.0 de outra
Dizer "caminhei de mãos dadas"
Falar com bebês desconhecidos na padaria
Espalhar que o bolo da vovó é o melhor do mundo
Papel de parede florido.
Boina vermelha de pintor
Novela das oito
(e CDs de novelas das oito)
Show de golfinhos
Usar várias bijouxs douradas juntas
Achar que dançar com saia rodada resolve todos os problemas
Chorar vendo Simplesmente Amor


*Essa lista teve contribuições de Jatobá Madeira (que assiste mesa-redonda de futebol e gosta de filmes protagonizados por cachorros); Giu Vallone (que envia letras de músicas via sms e ocasionalmente ouve Lenine); Ana Elisa Faria (que vê Chaves e, quando precisa, dorme abraçada com seu Snoopy de estimação); e Rach Sterman (que segue o Fabrício Carpinejar no Twitter).

Foto: green_submarine, via flickr

terça-feira, 24 de agosto de 2010

viagens em cliques


Seu Pedro do Balaio, em Guaramiranga, a Campos do Jordão do Ceará

Praia do Mirante da Sereia, em Maceió

A artesã d. Irineia, herdeira de Zumbi, com o anjo de barro que eu trouxe para São Paulo. No Muquém, povoado de União dos Palmares

Neta de d. Irineia fazendo arte

Pirata faz a travessia de bugues da praia de Mangue Seco até o povoado de Tatajuba, no Ceará, em balsas improvisadas

Bizarrice da natureza vira ponto turístico. Coqueiro com o nome auto-explicativo de saca-rolhas

Vai uma mandioca aí? Vendedora de raízes, frutas e verduras em Maragogi, Alagoas

Homem pescando em mangue, em São Miguel dos Milagres, Alagoas

A árvore preguiçosa (deitou a copa na areia e assim ficou), em Jericoacoara, no Ceará

Aquário natural na praia da Ponta do Gamela, na Barra de Santo Antônio, em Alagoas

As noites coloridas de Jericoacoara, no Ceará

Uma mulher que encontrei pelo caminho em São Miguel dos Milagres. Tinha ido buscar as madeiras para fazer, "como o pessoal chama? artesanato".

Gatinha de São Miguel dos Milagres, que por pouco não trouxe comigo para São Paulo

Bolinha, cachorro que bateu na porta do meu quarto no meio da noite

Porco causa frisson na praia da Ilha da Croa, em Alagoas

Tronco que enfeita a Vila Palateia, comunidade na Barra de São Miguel, em Alagoas, que vive 100% da criação de ostras

Passeio de canoa na Vila Palateia

Mulher trabalhando nas mesas de ostras

Mulher grávida observa manguezal, na Vila Palateia

Fresta de luz na estrada de terra que liga as cidades de Monte Verde e Gonçalves, em Minas Gerais