quarta-feira, 11 de novembro de 2009

quarta dose de leminski


desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

domingo, 8 de novembro de 2009

trilogia das cores


Virgínia estava muito gripada, mas não cancelou o show. Apareceu com cabelo curto vermelho, boca pintada de preto e vestido branco. Cada peça que nos prega essa vida, parecia até que tinha participado do último Círculo de Mulheres e ouviu aquela que adora ser esquisita dizer que todas as nossas transformações passam por essas três cores. Primeiro vem o preto, o medo-medão, escuro. Mas o que vier eu assino, disse o Leminski. Depois nos vestimos de vermelho, aparece a dor, que só de escrever dói, mesmo se você não tem nada para doer agora. E então surge o branco, branco espuma, o que vem não sei, mas "é bom que eu sinto". Assim disse a Talita, minha amiga que foi comigo ao Círculo e só tinha de ser com ela: naquele dia, contaram a história de uma mulher costureira. Talita sabe costurar magistralmente e não só suas belas bolsas com tecido de quimono. Pois por último vem o branco do vestido de Virgínia, mulher camaleoa, Aretha Franklin baiana que me trouxe Salvador e a força de quem perde a voz, mas não o lirismo. Apresentando um disco com esse nome, Recomeço, só podia mesmo estar de branco, e eu só podia estar lá vestida de flor e rodando sozinha no palco, por todas as minhas relações, que é como a gente diz antes de entrar na tenda quente e beijar o chão de terra. Que bom que o mundo é circular.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

manilkara zapota


Acho que todo dia acontece uma coisa legal. Assim, simplesmente legal. Várias. E nem estou incluindo beijos & manifestações teatrais no café. Tipo: no domingo passei na banca perto de casa e num impulso decidi levar a Vida Simples, li na capa R$ 12, por sorte tinha o dinheiro trocadinho e assim que o entreguei à vendedora, achei melhor confirmar o preço.

― É doze?
― Isso, e o seu?
Bom, sorri.
― É Giovanna.


Nem confirmei, mas ficou claro que seu nome era Rose. Qual é a chance, qual a probabilidade? Fui embora rindo de lado, puta calor na rua (pior é que as pessoas realmente gostam desse bafo quente, vi uma mulher dizendo 'assim que é bom!'. cruzes).

Na revista, uma matéria sobre frutas brasileiras me chamou a atenção. Anotei o nome do carinha colecionador de frutas raras, liguei pra ele e ele me indicou uma outra pessoa bacanérrima, cujo contato eu consegui na prefeitura de uma minicidade, só por causa de uma assessora que foi eficiente pra caramba. Eu até disseminei uma piadinha entreamigas por causa dela: não seria muito mais fácil se Deus tivesse uma boa assessora de imprensa?

Aí eu tomo uma coca-cola gelada, dou umas risadas sozinha, releio meu texto, penso em uma garotinha danada de esperta, que dê tudo certo, que seja feliz, anoto o nome científico do sapoti, manilkara zapota. Já começo a esboçar minha listinha do melhor de 2009, e coca-cola certamente continua sendo o santo remédio para dores diversas. Tudo parece tão banal, e tão divino.

outono em nova york







Uma vez li uma matéria que explicava o motivo pelo qual as folhas secas são vermelhas no hemisfério sul e amarelas no norte. Achei interessante, só que agora não me lembro o que era.

Não conheço, mas eu amo o outono em Nova York.

Jay Be foi para lá e fez um belo ensaio no Central Park, e um pedaço está aqui.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

palpite


Eu queria muito ter ido à casa da chef Lourdes Hernández domingo, no almoço em homenagem ao Día de Muertos. Não deu. Dias antes ainda cruzei com a Lourdes em um restaurante, ela fresca de vestido de verão, carregando açúcar. Queria entender o que o Día dos Muertos significa para ela e para os mexicanos e para mim. Tem a ver com aceitar nossas próprias sombras? Tem a ver com o recomeço de Virgínia? Por enquanto, me satisfaço com essa ilustração de Ernesto Fidel Romero Bayter.

sábado, 31 de outubro de 2009

caracas



Caracas, no lo creo, Virgínia Rodrigues amanhã e segunda no Sesc Pinheiros e a gente nem sabia! Disco novo, e olha o nome: recomeço. Putz grila, putz grila. Ela me lembra janeiro, Bahia, uma dor que se foi. A casa de uma pessoa muito especial, sauna quente, vidro embaçado, um laço, ventilador no teto. A gente deu de cara com a Virgínia no Tom do Sabor, em Salvador, e eu tirei uma foto com ela, que se perdeu, que se dane. Depois o cd não saiu do carro e então Sol Negro resolveu ficar em Piedade. Morou lá umas boas semanas e um dia, quando não havia nem esperança nem preocupação de recuperá-lo, estava em cima da minha cama, junto com um bilhete: "Obrigada". Não me canso de escutar a música dessa maravilhosa, é mais funda que poço de Passo Fundo, é um campo de girassóis, é um quarto branco, é o vestido florido que a amiga me deu, e não tem nada de mulherzinha.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

banca do ceagesp


Estava quente, pus os óculos escuros tortos como os do Mary e perguntei para o homem que passava onde podia encontrar frutas. Ele quis saber o que eu queria e rapidamente indicou um lugar, mas foi só na hora do tchau, obrigada, moço, que sorriu e disse: Ó, diz que você falou com o tal, e te garanto que você vai encontrar de todos os tipos e por preço bom. Todos, então já é época mesmo? Já é época, menina! Adoro fazer as perguntas certas para as pessoas certas, é por causa dessas bobagens que eu amo a vida. Voltei suando carregando caixa, tentando me equilibrar no salto alto. Entrei no carro, apertei a bichinha e chupei todo o suco, como eu fazia em alguma época que eu nem sei qual.