
O tempo está curto, estou na estrada. Às vezes, enquanto seguro a direção e olho as borboletas brancas brincando nas margens, tenho a sensação de que o caminho é melhor do que a chegada. Porque no caminho eu me experimento de um jeito novo. É no caminho que eu sinto medo, brigo com meu medos, acolho meus medos. É no caminho que posso ver um varal com ursinhos de pelúcia em vez de roupas. É no caminho que eu entendo como às vezes não adianta correr, que a direção vira, mas o carro desobedece. Devagar. Ontem eu fui ao Sítio do Picapau Amarelo. Estava fechado e passei uns minutos parada estudando o que faria (tem uma porta aberta ali?). Rosa apareceu, ignorou o expediente, abriu o sítio e me mostrou: se quiser conhecer a cachoeira do Reino das Águas Claras, vá por ali. Eu fui caminhando no meio de esterco de vaca e galinha ciscando, com shorts e melissa, o único dia em que dispensei as maravilhosas botinas. Fui seguindo o barulho de água batendo forte na terra e, de repente, estava com mato até metade das coxas, caindo em buraco atrás de buraco. Não pode ser aqui, eu peguei o caminho errado. Por favor, não pise numa cobra, eu pensava. Vi um rapaz lá longe, acenei. "Moço, vem aqui!". Ele veio. Pedi ajuda. Moço, não é essa a cachoeira do Reino das Águas Claras? "Ah", ele sorriu, olhando para o chão. "Todo mundo confunde e vem para essa, mas é outra ali mais perto. É que o barulho dessa é mais forte". Fomos caminhando até a cachoeira certa. "Mas", ele continuou, "as pessoas não entram no mato como você, elas param antes". A canela coçando, e eu pensando que se não pegasse carrapato rezaria 10 ave-marias e, posso confessar? Orgulhosa. Eu entro mesmo.






