terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

o verdadeiro sítio do picapau amarelo


O tempo está curto, estou na estrada. Às vezes, enquanto seguro a direção e olho as borboletas brancas brincando nas margens, tenho a sensação de que o caminho é melhor do que a chegada. Porque no caminho eu me experimento de um jeito novo. É no caminho que eu sinto medo, brigo com meu medos, acolho meus medos. É no caminho que posso ver um varal com ursinhos de pelúcia em vez de roupas. É no caminho que eu entendo como às vezes não adianta correr, que a direção vira, mas o carro desobedece. Devagar. Ontem eu fui ao Sítio do Picapau Amarelo. Estava fechado e passei uns minutos parada estudando o que faria (tem uma porta aberta ali?). Rosa apareceu, ignorou o expediente, abriu o sítio e me mostrou: se quiser conhecer a cachoeira do Reino das Águas Claras, vá por ali. Eu fui caminhando no meio de esterco de vaca e galinha ciscando, com shorts e melissa, o único dia em que dispensei as maravilhosas botinas. Fui seguindo o barulho de água batendo forte na terra e, de repente, estava com mato até metade das coxas, caindo em buraco atrás de buraco. Não pode ser aqui, eu peguei o caminho errado. Por favor, não pise numa cobra, eu pensava. Vi um rapaz lá longe, acenei. "Moço, vem aqui!". Ele veio. Pedi ajuda. Moço, não é essa a cachoeira do Reino das Águas Claras? "Ah", ele sorriu, olhando para o chão. "Todo mundo confunde e vem para essa, mas é outra ali mais perto. É que o barulho dessa é mais forte". Fomos caminhando até a cachoeira certa. "Mas", ele continuou, "as pessoas não entram no mato como você, elas param antes". A canela coçando, e eu pensando que se não pegasse carrapato rezaria 10 ave-marias e, posso confessar? Orgulhosa. Eu entro mesmo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

vidraça circular


No meio de um apuro, quando mil cavalos empinam dentro de você e a rédea está frouxa, meu pai me mandou a mensagem mais bonita do ano. Sorri e me recompus com a mesma velocidade com que o ceramista japonês Shugo Izumi transforma prato em vaso. Alinhei os cavalos, está tudo bem. Hoje, achei que era a minha vez de retribuir e enviei: "pai, você é incrível, não se esqueça das palavras rosa". Na pressa, esqueci do artigo. Rosa é o nome da astróloga. Ele não entendeu. "Palavras rosa?". E eu gostei tanto do erro que respondi: isso mesmo, palavras rosas, aquelas das quais a gente deveria se lembrar todos os dias. Amém.

Foto: Ryan McGinley

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

vazei


Resolvi colecionar vasos, decisão que nem minha foi, quando vi já estava na terceira sacola. Foi decisão minha. Mas pode mudar, aviso. E o que a gente vai fazer com tantos?, ele pergunta. E se encher de bichinho? Eu não sei, mas eu vou. Pode ser que deixe os vasos no armário, só para de vez em quando abri-lo e lembrar. Como a mulher que abre a janela na manhã em que decidiu usar a blusa de gola de renda. Talvez eu encha todos os vasos de flores e os exiba em apenas uma estante que eu nem tenho ainda, formigueiro de vasos pra dar coceira. Mas imagina uma estante toda fodida cheia de flor de cerejeira? Eu também posso presentear as amigas com vasos: esse é a cara dessa, esse é aquela ali escrita. Que vaso sou eu? Periga jogar sementes neles todos, um por um, distraída e certeira como a borboleta azul que apareceu debaixo da minha cadeira no restaurante da Serra da Cantareira. Tudo o que eu tenho agora são vasos.

Foto de Verônica Huang para o blog da Talita Nozomi

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

na boca da bocaina


Ela se sente como um bebê, bebês carregam esse aperto no peito ― duro como couro de jacaré, pontiagudo como a faca do mais obstinado chef ― antes de nascer. O ano novo foi água, a cachoeira transbordava água da chuva, pelas costas descia o suor enquanto os dois subiam a ladeira dos Macacos com as camisetas na cabeça como uma guirlanda da paz. A noite da virada, para ela, foi de paz. Mas e esse peito que continua, ora sim ora não, com o peso de uma mala cheia de livros? Diz que bebê sente isso antes de nascer, o médico garantiu e o passarinho Tiziu.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

2009


Se 2009 fosse uma cor seria preto, vermelho e branco, nessa ordem e fora de ordem (porque não há)
Se fosse um animal seria um labradoodle
Se fosse um carro seria um Smart esquisistiloso, como a sapatilha da King55
a verdade é que eu também adoro ser esquisita
"tenho uma tendência ao otimismo", uma pessoa escreveu, e essa frase ficou na minha cabeça
Se 2009 fosse um sapato de flamenco seria o Carmen
se fosse um dia, seria hoje
Se fosse uma música, uma só música, talvez fosse Cira, Regina e Nana, do Lucas Santtana
mas se fosse todas seria qualquer uma da francesa Amelie Les Crayons ou da curaçolenha Izaline Calister
se 2009 fosse uma prova, ele seria daquelas interdisciplinares, em que se aprende ao mesmo tempo álgebra, língua portuguesa e biologia
se 2009 fosse um móvel, seria a mesinha roxa feita com latas de coca-cola pelos alunos da Lourenço Castanho
se fosse uma caipirinha, seria a de amora com carambola do Rabo de Peixe, é claro
uma coisa banal muito legal: achar o cartão de débito dele dobrado no lixo na Benedito Calixto, desdobrar o cartão e depois conseguir passar o cartão no Genésio, que vive normalmente com a cicatriz, bem e saudável, obrigado.
A praia mais bonita é Kenepa Grandi, em Curaçao
Se esse ano fosse um sentimento, seria aquele que eu experimentei com a família Buscapé, na Serra da Bocaina
ou quando entrei na casa de peroba verde e branca, em Cianorte.
Se 2009 fosse um choro, seria o de sexta-feira passada, no carro, em Moema, um choro cheio de tristeza velha e felicidade nova, por isso eu o compartilhei com pessoas que eu amo muito
se esse ano fosse um país, ele seria o meu, aquele do qual só eu faço parte, em que só eu pago os impostos, aquele que somente eu desfruto em dias de muito sol, boiando na piscina com o corpo gelado da água voltando a ficar quente
em 2009 eu fiz uma coisa deliciosa. eu me surpreendi. eu tatuei o infinito de Guimarães Rosa no pulso e vou passar a virada com os cachos dourados
se 2009 fosse uma profissão, seria a de equilibrista
termino 2009 perto de um sonho que achei que realizaria dali a uns 5 anos
você vê, o universo realmente escuta
é um lugar, uma rua larga, com flores cheirosas e uma escada firme de madeira na entrada
e também estou perto, que maravilha, de muitos outros lugares que serão meus, tantos que eu nem sei quais.
talvez eu não consiga listar, com a precisão do ano passado, o melhor show malucaço, o melhor beijo, o melhor banho de chuva
pois nem o momento que deveria ser o mais triste foi mesmo: eu gritei eu te amo entrando na sala de cirurgia, é verdade
ao meu lado, nós duas na maca e de touquinha, tinha uma japonesa velhinha que não queria responder às perguntas básicas da médica porque estava sem dentadura, e a médica delicadamente entendeu e virou-se para trás
2009 é aquele prato que você comeu e não sabe dizer o que tem ali, mas o gosto é tão bom

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

sacolacoralina


Dei para minha terapeuta o último disco da Mercedes Sosa; o patê de berinjela da Lucinha; minha primeira conserva, feita com pimenta-de-cheiro doce do Maranhão; um chaveiro de sapato que ganhei de uma garota turca quando tinha 11 anos; o livro de receitas da Cora Coralina. Juntei tudo assim, de manhã, num impulso. Aí, depois de muita e boa chuva, fiquei pensando: Alguém precisa de mais que um bom livro e boa música, comida gostosa de dar gula, uma pitada de pimenta e um sapato? Foi uma quitadeira mineira que me disse para ter sempre sapatinhos por perto, eles nos ajudam a manter o pé no mundo.

Mas tem mais uma coisa, sim. A gente também precisa de uma sacola para pôr tudo isso.

Quer ser minha sacola?

*desenho em couro feito por Célia Medeiros de Araujo, atualmente em exposição na Galeria Sumé, em Cianorte

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

os teus regalos


Em quatro dias, quebrei: um pote para patê comprado pela família para uma ocasião especial, o frasco do meu perfume muito novo (não vi que a caixinha estava aberta embaixo, joguei e vupt, perfeitamente em cacos no chão do banheiro). Perdi: meus velhos óculos de grau, minha carteira de trabalho. Dá um certo nervoso. Parece que a qualquer momento posso esbarrar num vaso da Dinastia Ming ou não achar a carteira na bolsa. Mas então ele me tranquiliza do outro lado da linha dizendo que essas coisas acontecem mesmo quando estamos mudando. É totalmente normal, ele diz. E eu lembro da Juno dizendo você é simplesmente a pessoa mais legal do mundo sem ter de fazer o menor esforço.

foto: meu amor