terça-feira, 31 de março de 2009

Com licença poética


Porque nunca nenhum gibi ficou latejando na minha cabeça como Watchmen. Justo esse cuja versão cinematográfica fui assistir da maneira mais despretensiosa possível; não tinha ideia do que se tratava. A ausência do maniqueísmo barato é um soco na pontinha afiada do estômago, daqueles que te deixam tonto como duas taças de um vinho alcoólico em excesso. Até agora vejo a expressão oca do Dr. Manhattan, sua angústia azul-cristal. O homem mais sábio do mundo é na verdade um atrapalhado, lastimoso, uma criança rodeada dos mais sedutores presentes sem nenhum amiguinho com quem brincar. Joga peteca sozinho, no teto, chuta a bola no muro. Falta a Manhattan, como Virginia Woolf escreveu lindamente, a amendoada certeza de que a vida não é uma série de faróis simetricamente arrumados, a vida é uma auréola luminosa, um envelope semi-transparente nos surpreendendo desde o início da consciência até o final.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sol-lar


O amor é velho, velho, velho
Velho e menina
O amor é trilha de lençóis
E culpa, medo e maravilha

O amor é velho...

O tempo, a vida, a lida, andam
pelo chão
O amor aeroplanos
O amor zomba dos anos
O amor anda nos tangos
No rastro dos ciganos
No vão dos oceanos
O amor é poço onde se despejam
Lixos e brilhantes
Orações, sacrifícios, traições

O amor é velho
e menina

*O amor é velho-menina, de Tom Zé

Imagem: Pareja, de Alejandro Xul Solar

segunda-feira, 23 de março de 2009

fantástico


Fantástico, realmente fantástico descobrir o Kraftwerk na fazendona do Jockey (é certo que têm culpa as estrelas que se moviam no céu naquele exato momento).

Foi extasiante escutar o começo de Weird Fishes/Arpeggi observando a menina ruiva sorrindo de olhos fechados; foi doce cantar baixinho Fake Plastic Trees sentada no gramado.

Mas o som do Kraftwerk, como se diz em espanhol: muy poca madre! Demais. Aqui, The Man Machine.

Até o cantinho escolhido era perfeito – a multidão pode não ter vibrado, mas justo ali havia uma rapaziada vinda de mala e cuia de Woodstock.

E São Pedro ainda negociou com o Todo Poderoso e caiu uma chuva apressada em troca de uma noite graciosamente fria.

Foto: Tiago Queiroz

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pig


Quando eu topava o dedão do pé – porque era assim que a gente falava, ‘topei o dedããããão!” – era ela que fazia o band-eid dar a volta no dedo, com sua mãozinha fininha de macaco, e dizia: “Esquece da dor que ela passa”. É mentira. Tudo o que eu disser abaixo é mentira porque a verdade é que eu distorço muito o passado, ela diz. A verdade é que ela tem uma memória filha da puta de elefante. Qué hacer? Lembra até do seu aniversário de 1 ano, lembra tanto das coisas que acha que foi uma criança malvada (sábio chip que é naturalmente desativado de uma fase para a outra da vida). Está certa, eu distorço mesmo o passado, invento que o nome do vendedor de sonhos era Gordo, não sei a diferença entre confete e serpentina.

Mas como não se pode deixar de lembrar, assim como não se pode evitar que às vezes o nó na garganta aperta feito sandália de salto alto de casamento (só que a sandália a gente controla quando vai tirar), hoje, dia em que, há 23 anos, ela chegava aqui, eu lembrei.

É minha amiga desde a barriga.

Ela é loira e tem olhos verdes-azuis, uma calma de mãe, toma o banho mais demorado do mundo, ouvia Cartola desde nenê, costuma derrubar um pouquinho de sal na mão nos restaurantes e ama a Armênia. Nasceu no dia de S. José e dos Gênios da Humanidade. Quando fraquejo, lembro de como ela é valente e seus e-mails têm o mesmo efeito do pó da bruxa que a gente jogava em cima da outra na praia.

Desejo que todos os dias ela durma embalada pelos sinos da canção de Keren Ann, com a sensação de que está levando a vida com amor, porque o resto é firula. Agradeço. E, na posição de irmã de alma, exijo o que os só muito atrevidos e um tanto mal aprumados exigem: o Para Sempre, esse duende cor-de-rosa.

Eternamente Poly, de madeira e roxa.

quarta-feira, 18 de março de 2009

terça-feira, 17 de março de 2009

caracol marciano


Ilustração do cartunista Sam Gross para a revista New Yorker

sexta-feira, 13 de março de 2009

Wally Laloni


Morreu Wally, filho de Tonico e Mel. Encostou-se na velha poltrona da sala onde costuma se sentar Têra, descansou a cabeça no chão e morreu.

No Natal de 1993, um dos cunhados se vestiu de Papai Noel e veio do fundo do quintal trazendo um poodle com uma fita vermelha enrolada no pescoço. Os netos, extasiados, disputavam o cãozinho que esquentava de colo em colo, um bibelô natalino. Os filhos deviam estar sentindo uma felicidade cautelosa, amarela, à espera de um olhar permissivo de Têra.

Ela sorriu e meio a contragosto segurou o filhote, muda.

― Gostou, vó, gostou?

O gostar da gente às vezes é meio torto, caminha aos tropeços, segue cambaleando mas, de repente, é.

Têra, sem seu Hugo, aos poucos se acostumou com a presença do cachorro que o marido tanto queria ter. Wally aos poucos se acostumou com a presença de seu arquiinimigo Frederico.

Durante metade de sua vida foi febril, intempestivo e rude; nos últimos oito anos, uma inesperada placidez tomou conta do bichinho. Alguns dizem que tornou-se sábio com a idade e, em vez de mostrar os dentes quando Frederico o fitava provocante, aprendeu a se retirar. Há teorias de que tenha sossegado depois que a tia Maria lhe marcou o traseiro com uma chinelada impiedosa porque ele havia sumido com sua dentadura.

O fato é que em um recente Natal, já cego, escorregou do terraço do quarto e foi visto se arrastando no asfalto, tremelicando e gemendo. "O Wally caiu!", avisavam. "Mãe, é melhor levarmos o Wally para o hospital, olha o estado dele", pedia Cristina. Estava curvado, caminhando com muita dificuldade. Tinha horas em que o tremelique recomeçava e todos se aproximavam dele desejando carregá-lo no colo, mas ninguém conseguia. Wally, em algum momento de sua vida, rejeitou ferozmente um carinho e desde então só as visitas se arriscavam a tentar.

Era triste ver o cão naquele estado, mas um tanto cômico: o invisível Wally virou Jesus no Natal.

― Hoje ― disse com firmeza Frederico, e fez-se um raro silêncio na sala ― até eu estou com dó do Wally.

Têra olhou bem para ele e, com certeza de mãe, deu a sentença:

― O Wally não vai para o hospital coisa nenhuma. A dor vai passar.

Wally sobreviveu e viveu tranquilo e sereno mais três ou quatro anos, à exceção de outro acidente (as crianças empilharam as almofadas do sofá e o colocaram em cima. "Wally é o rei, Wally é o rei!". Wally caiu e teve um troço, as crianças, desesperadas, gritando junto com ele).

Quando morreu, numa quinta-feira em que Têra, prevendo o adeus, suspendeu o tradicional almoço, a neta que estava na barriga da mãe no dia em que Wally chegou à família, chorou.

A notícia correu feito brasa e todo mundo ficou sabendo que Wally se foi. Na mesma sala onde espalhou inúmeras vezes papel higiênico sujo, roubou restos de comida dos pratos e levou chutes enquanto acompanhava os almoços debaixo da mesa. Wally se foi grudado na barra da calça azul de Têra para, talvez, sentir menos medo. E só se foi porque Têra, como fez silenciosamente durante toda a vida, garantiu: está tudo bem.

quinta-feira, 12 de março de 2009

uriburu


"É uma perfeição absoluta, dir-se-ia divina, sabermos desfrutar lealmente do nosso ser"

Michel de Montaigne

Foto: Energía Eólica, de Nicolás García Uriburu

sexta-feira, 6 de março de 2009

Guignard sem Amalita


“Guignard viu em uma das janelas de sobrado ouro-pretano uma menina de 14, 15 anos. Ficou encantado e comparou-a com Marília de Dirceu (personagem do livro do inconfidente mineiro, Tomás Antônio Gonzaga). Inebriado pela visão daquela adolescente comprou um lenço branco, agulha, um retrós de linha vermelha, foi para o hotel e bordou um coracão vermelho no lenço. Queria entregar para a moça. Criou um clima. Insistiu em entregar. A mulher do Samuel concordou em ir com ele até o sobrado. Eles contaram a história para o pai da garota, que deu um esporro: 'Minha filha é muito jovem e não merece um velho'. Naquela noite, Guignard tomou todas”.

Relato do fotógrafo Luiz Alfredo postado no blog do Juvenal Pereira

*Foto de Luiz Alfredo mostra Guignard pintando Ouro Preto

quarta-feira, 4 de março de 2009

eu te amo, jaca


"Não sei direito o que é uma jaca. Um rinoceronte, um elefante que virou fruta? Em todo caso, está na cara que veio de longe, do tempo em que tudo era grande e forte e não era costume temer a morte. Tem cem anos de solidão.

A jaca contém perigos. Seu peso mata, seu cheiro pós-maduro mata, jaca com leite mata. Muita jaca mata, mesmo sem leite.

É exagerada sem ser vulgar. Se fosse vulgar, ao amadurecer, se encheria de vermelhos e rosas e alaranjados, mas não. Fica firme nas cores de monja dourada. Seria exagero dizer que a jaca usa sandálias Birkenstock?

É, acho que seria.

Coleciono livros de ingleses na Índia e sempre imagino uma inglesinha chegando à sua casa nova, de chapéu de aba, muita saia e um pote de sais para o banho na bagagem. Na varanda de bambu, alguém, para agradar, botou numa gamela trançada umas jacas de luxo.

Pronto. Mais nada é preciso. A inglesa vê, sente e entende a jaca e não há que se abalar pelos campos, templos, macacos e pintas na testa para saber o que é a Índia. Está ali, sintetizada nos gomos da fruta, dando medo e uma certa alegria desconhecida e plena. Uma inglesa que viu a jaca nunca mais será a mesma.

Não se sabe se a jaca é do bem ou do mal, do dia ou da noite. Pode ser os dois. Abre-se esplendorosa, só falta cantar, para a fome do menino e pesa como uma tonelada de náusea no luto de uma mulher.

A jaca é a orquídea das frutas e está na moda. Começou a ser vista nas feiras e supermercados quando um sábio comerciante percebeu que a realidade da jaca é excessiva. Ninguém compra uma jaca. Pode ganhar uma em ilha do litoral e ter de ir nadando com ela até o barco, pode tudo, menos comprar e levar para casa uma jaca viva.

Mesmo na feira ela não fazia bonito em manhãs claras com cheiro de pastel e garapa pelo ar, sacolas, bóbi na cabeça, não, definitivamente a jaca não orna com quase nada, a jaca combina-se com muita dificuldade.

O comerciante fez o que era preciso. Domou a bicha. Arrancou sua pele de crocodilo, tirou os caroços com delicadeza para não magoar a polpa macia e carnuda, eliminou a gosma que une os gomos e congelou-a em bandejinhas de isopor.

Toda semana, uma amiga querida quando faz seu cooper deixa uma bandejinha dessas coberta de vitafilme no meu freezer.

Confesso que é um triste espetáculo, é como ter cinzeiros de presas de elefante. Vai-se o que há de mais precioso, que é a identidade da fera. Fica o souvenir.

Mas um dos defeitos ou qualidade da jaca é a persistência teimosa. Não congela nem no freezer, por ser muito doce. Fica lá fingindo-se de domada. Podemos comê-la nesse estado, é como um sorvete delicado. E ela, sempre lá no fundo, disfarçadíssima. Se tirada da geladeira e esquecida num canto da cozinha vai retomando suas características como os bichos de filmes da meia-noite. Cheiro, cor, eflúvios mensageiros. Em breve, todos andam pela casa, atarantados sem saber de onde vem aquele zoar de mato, aquele chamado de cachoeira em dia de lua.

Pois está na moda, volto a afirmar. Um cozinheiro francês faz um purê dela muito cozidinho e põe do lado do cordeiro.

Está sendo comida glaçada, como um marron.

Da China vem seca, tostada, estralando nos dentes como pururuca.

Seca e massuda, um chiclete, vem daqui mesmo.

Verde, quando ainda não afiou seus bicos de jaca, substitui a carne vermelha.

Seus caroços, depois de passados na água fervente, são assados como castanhas.

A jaca não é uma unanimidade. Ame-a ou deixe-a."

*Ai, que delícia! Não sei direito o que é uma jaca, texto de Nina Horta publicado na Folha de S. Paulo e selecionado pelo mestre Luiz Horta para o livro O Melhor da Gastronomia e do Bem Viver

Foto: Leandro Morais

domingo, 1 de março de 2009

Mulherzinha


Eu não me conformava, ela conta, rindo, eu tentei te persuadir, te perguntei dezenas de vezes se você tinha certeza de que era isso mesmo que queria, e você respondia que sim, sim, mãe, é isso. Bom, o caso não era grave. Depois de meses deixando a franja crescer, acordei com vontade de ter franja de novo. E de cortar o cabelo bem curtinho. Acho que era o dia do meu aniversário de 9 anos, comemorado na garagem da querida casa situada na rua do poeta português. O Fike, nosso cão boxer, não parava de latir e a Bia ainda era um bebê loiro gorducho que dançava e sorria toda vez que alguém cantava "digue digue dom digue dom dom dom..." (ela cresceu e virou um mulherão, mas continua não gostando de beijos e grudes).

A vida toda foi assim: nunca tive medo de cortar o cabelo. Uma vez ficou terrível, curto demais para as ondulações e provavelmente ousado demais para a tímida garota. "Está parecendo uma maneca!", disse a cabeleireira. Ganhei um apelido na escola. Cogumelo. Uma foto 3x4, que já quase joguei fora umas milhões de vezes ― mas recuo porque acho a maior graça ― comprova o estrago. A verdade é que passei por isso sem grandes traumas.

Não me lembro de ficar horas e horas no banheiro secando o cabelo ou de andar escondida pelos cantos, chorosa. Também não jurei que jamais usaria o cabelo curto de novo, já fiz isso um bocado de vezes. E ainda bem que eu cortei franjinha aquela vez porque deve ter sido a última.

Só para minhas barbies, coitadas, é que os cortes foram definitivos (mas a Bia deu uma ajeitada nelas e então formaram-se lindas famílias de blond barbies super ultra radicais).

Foto: Furtada do blog da Lolita, uma indicação da Tata