terça-feira, 21 de setembro de 2010

as notas que eu aprendi


Tia Arlete era miúda, elegante, tinha cabelos brancos macios, corte joãozinho e uma boca igual a da Renata Sorrah. Eu secretamente ria puxando os dois cantos da minha boca, imitando a dela, em frente ao espelho.

Morava num sobrado nos Jardins, numa curva perto da Igreja São José. Eu a visitava uma ou duas vezes por semana, quando sentávamos no velho piano marrom com as teclas amareladas e juntas tocávamos do-ré-mi-fá.

Era uma sala escura, possivelmente vinho, com móveis muito antigos. O marido da tia Arlete andava em uma cadeira de rodas e eu tinha medo dele. De vez em quando ele aparecia durante a aula, ou chamava por ela lá da sala onde eu nunca entrei.

Ela me olhava, emocionada, no meio de alguma música e dizia: "Veja como eu fiquei arrepiada...", apontando os pêlos do braço. Só que eu não sabia o que era estar arrepiada, então concluía que ela gostava de mim.

Gostava tanto que me chamava para participar de recitais em que só reunia seus alunos adultos. Eu chegava toda arrumadinha, o cabelo lambido de gel preso em um rabo de cavalo, e a tia Arlete fazia questão de dizer, em voz alta: "Pessoal, essa aqui é a Giovanna". Eu comia muito bis.

Era uma delícia tocar piano. Ela me deixava seguir por onde eu quisesse, ensinava com ternura, sabia que o estímulo mora numa casinha de sapê e é assustadiço como gato recém-nascido. Aos domingos, na casa da nonna, a primeira coisa a fazer era abrir seu piano envernizado, bem diferente do da tia Arlete, e tocar "tãnã-tãtã-tãnã-tãtã-tãnã-to-non-tãnã-to-non...".

Quando chegou a hora de aprender as notas musicais, me irritei com o piano. Não sabia desenhá-las, tia Arlete me fazia refazer uma dezena de vezes aquela maldita clave de sol (que nunca saía perfeita). Me irritavam até os nomes, sustenido, dó-maior. Para mim, números e símbolos não tinham nada a ver com música. Não queria aprender.

Devo ter enchido tanto minha mãe que um dia ela cedeu: certo, não quer mais, largue as aulas de piano.

Não tive coragem de ligar para a tia Arlete e pedir desculpa. Eu sabia que era importante para ela acreditar que eu pudesse ser uma pianista, embora, na verdade, eu não tivesse talento. Nem mesmo dedo fino.

Um tempo depois, virou moda tocar teclado. As amigas tinham teclados em casa, eu mesma acabei ganhando um, mas só servia para apertar o botão azul que fazia tocar Happy Birthday. Eu achava que o teclado era um sub-piano e, em minha maledicência infantil, julgava minhas amigas pobres coitadas que não conheciam a verdadeira música.

Durante anos, passei em frente à sua casa todos os dias - estava no caminho entre a minha casa e a escola. Na verdade, até hoje passo por ali, mas agora não tem mais o sobradinho. Ele foi engolido junto com uma porção de outros e virou mais uma mansão neoclássica.

Foto: Amarynth Sichel, via flickr

Um comentário:

Cláudia disse...

Nana
Adorei!!!
bjo
Mami