quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ninho


Uns tempos depois que a gente mudou de casa, passei na frente e a porta estava aberta. Pedreiros trabalhavam na reforma há meses. Perguntei a um deles se podia entrar, lembro exatamente o jeito como eu disse com licença, moço, mas é que eu morei aqui 15 anos.
Ele deixou.
Não tinha mais aquela escadinha de tijolo que dava acesso à área de serviço, por onde todo mundo sempre entrava.
A cozinha não estava mais lá nem a sala nem o jardim nem o salãozinho.
A casa usava a mesma roupa, mas tinha sido drasticamente demolida por dentro, e eu não tinha ideia, não me foi concedido nem o mais relapso dos avisos prévios.
Procurei meu quarto, procurei meu terraço
Andei a casa toda e era como se fosse um fantasma, ninguém me notava ali.
De tudo, restou apenas uma coisa: a sala de tevê.
Lembra quantas vezes você sentou no sofá azul marinho com bolachas mergulhadas no café com leite?
Me traz uma pequena calma imaginar que todas as casas de todas as ruas de todos os mundos carregam tantas histórias bonitas.
Nunca contei para a família que a nossa casa não existia mais, mesmo que eu fosse uma perfeccionista das explicações e eles compreendessem como alguém que confere os gastos no extrato bancário, não adiantaria.
Saí de lá do jeito que a gente sai quando o passado ganha frescor de cachoeira: esquisito e feliz.
Acho que foi um presente da velha casa, essa nossa íntima despedida.
quer dizer, até hoje quando, durante o sono, sonho que estou em casa, é essa casa que aparece.
Desde então eu fiquei mal acostumada:
quero sempre mudar e encontrar as portas destrancadas, para o caso de estar ali de passagem e precisar entrar.
ora, acho que dos piores vícios não é.

Foto: não sei

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

novela das oito


Liguei para saber qual é a manga que dá na mangueira lá do sítio, e não me lembro exatamente como mas chegamos na novela das oito. "Você tá vendo? Ai, tá tão triste", eu falei. E ela, delicada, como sempre, me explicou que está vendo, sim, mas se fica muito triste deixa lá rolando e vai fazer outra coisa. Abre o jornal, lê revista, vai costurar uma roupinha nova para as bisnetas, liga para um dos filhos. "A vida toda eu fiz isso: se eu sei que alguma coisa vai me deixar triste, eu mudo de assunto e quando está tudo bem de novo, eu volto". Não é só culpa da laranja que ela religiosamente come todos os dias, sábia vovó.

*em tempo: vovó é autora do melhor suspiro do mundo

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

quarta dose de leminski


desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

domingo, 8 de novembro de 2009

trilogia das cores


Virgínia estava muito gripada, mas não cancelou o show. Apareceu com cabelo curto vermelho, boca pintada de preto e vestido branco. Cada peça que nos prega essa vida, parecia até que tinha participado do último Círculo de Mulheres e ouviu aquela que adora ser esquisita dizer que todas as nossas transformações passam por essas três cores. Primeiro vem o preto, o medo-medão, escuro. Mas o que vier eu assino, disse o Leminski. Depois nos vestimos de vermelho, aparece a dor, que só de escrever dói, mesmo se você não tem nada para doer agora. E então surge o branco, branco espuma, o que vem não sei, mas "é bom que eu sinto". Assim disse a Talita, minha amiga que foi comigo ao Círculo e só tinha de ser com ela: naquele dia, contaram a história de uma mulher costureira. Talita sabe costurar magistralmente e não só suas belas bolsas com tecido de quimono. Pois por último vem o branco do vestido de Virgínia, mulher camaleoa, Aretha Franklin baiana que me trouxe Salvador e a força de quem perde a voz, mas não o lirismo. Apresentando um disco com esse nome, Recomeço, só podia mesmo estar de branco, e eu só podia estar lá vestida de flor e rodando sozinha no palco, por todas as minhas relações, que é como a gente diz antes de entrar na tenda quente e beijar o chão de terra. Que bom que o mundo é circular.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

manilkara zapota


Acho que todo dia acontece uma coisa legal. Assim, simplesmente legal. Várias. E nem estou incluindo beijos & manifestações teatrais no café. Tipo: no domingo passei na banca perto de casa e num impulso decidi levar a Vida Simples, li na capa R$ 12, por sorte tinha o dinheiro trocadinho e assim que o entreguei à vendedora, achei melhor confirmar o preço.

― É doze?
― Isso, e o seu?
Bom, sorri.
― É Giovanna.


Nem confirmei, mas ficou claro que seu nome era Rose. Qual é a chance, qual a probabilidade? Fui embora rindo de lado, puta calor na rua (pior é que as pessoas realmente gostam desse bafo quente, vi uma mulher dizendo 'assim que é bom!'. cruzes).

Na revista, uma matéria sobre frutas brasileiras me chamou a atenção. Anotei o nome do carinha colecionador de frutas raras, liguei pra ele e ele me indicou uma outra pessoa bacanérrima, cujo contato eu consegui na prefeitura de uma minicidade, só por causa de uma assessora que foi eficiente pra caramba. Eu até disseminei uma piadinha entreamigas por causa dela: não seria muito mais fácil se Deus tivesse uma boa assessora de imprensa?

Aí eu tomo uma coca-cola gelada, dou umas risadas sozinha, releio meu texto, penso em uma garotinha danada de esperta, que dê tudo certo, que seja feliz, anoto o nome científico do sapoti, manilkara zapota. Já começo a esboçar minha listinha do melhor de 2009, e coca-cola certamente continua sendo o santo remédio para dores diversas. Tudo parece tão banal, e tão divino.

outono em nova york







Uma vez li uma matéria que explicava o motivo pelo qual as folhas secas são vermelhas no hemisfério sul e amarelas no norte. Achei interessante, só que agora não me lembro o que era.

Não conheço, mas eu amo o outono em Nova York.

Jay Be foi para lá e fez um belo ensaio no Central Park, e um pedaço está aqui.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

palpite


Eu queria muito ter ido à casa da chef Lourdes Hernández domingo, no almoço em homenagem ao Día de Muertos. Não deu. Dias antes ainda cruzei com a Lourdes em um restaurante, ela fresca de vestido de verão, carregando açúcar. Queria entender o que o Día dos Muertos significa para ela e para os mexicanos e para mim. Tem a ver com aceitar nossas próprias sombras? Tem a ver com o recomeço de Virgínia? Por enquanto, me satisfaço com essa ilustração de Ernesto Fidel Romero Bayter.