
No segundo dia, senti aquela moleza boa de férias. Preguiça, risada solta, calor, calor, mas e daí? Não tinha brisa do mar para refrescar nem um quartinho branco com ar condicionado nem caipirosca gelada. Era o calor de um quarto apelidado de mini-ONU onde havia a doçura de uma israelense maternal cujo nome, Tsufit, significa beija-flor, e a delícia dos exagerados desatinos de uma enfermeira australiana. Era também o calor da primeira vez, a primeira vez nesta cidade que parece toda cor-de-rosa, que não é lá e não é ali, que não acolhe mas não expulsa, que tem gosto de doce de leite e, se fosse um passo, seria o ocho (e, neste ponto, dou razão ao confuso Sebastián: talvez um ocho restrictivo). Era o calor que caía das pernas peludas dos músicos da
Ciudad Baigón na Milonga de Los Jueves. O sol impiedoso durante uma longa caminhada em Puerto (Miami) Madero em busca de um belo bife de chorizo. O calor do Gastón, garçom do
Boliche de Roberto , o mais simpático de Buenos Aires. Ele elogiou o vestido dela, zombou o sotaque dos espanhóis, tentou falar "praia da Pipa" e ainda esqueceu de cobrar uma Quilmes providencial, tudo isso enquanto Osvaldo Peredo cantava "
para qué fingir? Paciencia...La vida es así".
Voltei com poucas fotos, mas muitas molduras, uma linda blusa branca de renda, a dica de
um site alucinante de tango , a certeza de que preciso mudar o plano do celular e mais animada para dançar, embora possivelmente não flamenco. Algumas confirmações: os argentinos não são calorosos como a funcionária do Museo Nacional de Belas Artes, San Telmo é mesmo meu canto favorito, a escolha da casa de câmbio faz diferença, o tomatito loco é o presente porteño mais bacana e o mundo todo se rendeu às Havaianas (não os culpo, também eu não resisti).
Y la vida es así, sigo creendo porque así dime mi corazón.
Y um obrigada imenso à
amiga querida que volta com mais flores para se enfeitar.