sexta-feira, 2 de outubro de 2009

samuca


Estava usando bigode, coisa de um mês pra cá. Cochilava no banco do carro com invejável imobilidade, como um passarinho deve dormir em Bonito. Cutuquei-o sem cerimônia, acorda, Samuca, acorda. Acordou e me abraçou forte, com sorriso de criança. Nas horas em que seu mau-humor me irritava muito e eu tinha vontade de ser malcriada, eu lembrava do sorriso de criança e pensava nem que quisesse, nem que quisesse podia ser má pessoa. Afinal de contas, ele é um Samuca, Samucas sempre são pessoas do mais fino trato. "Tá de bigode, hein?". Ontem Samuca me contou frustrado que, há semanas, assim que me deixou em casa e virou a esquina, sentiu alguma coisa espatifar no porta-malas. Era a cachaça que compramos em Guararema. Nós passamos quase 24 horas por dia durante 10 dias dentro do mesmo carro, desviando de bambuzal atrás de bambuzal. "Tão longe para voltar tudo amanhã? Não faz sentido", ele argumentava. Eu dizia não mesmo, não faz, mas a gente vai. Acho que ele me matou algumas vezes. Na última noite, nos demos ao luxo de comer quanto quiséssemos num bar carioca muito ruim, éramos um trio. Pedimos torresmo, tava queimado. Samuca olhou feio para o arroz piamontese e quando levou a primeira garfada de carne à boca, chiou: "Esse molho madeira...não podia ter vindo sem?". Ficamos os três rindo, não é possível que ele tá reclamando, todos os mal entendidos pulverizados, derretendo mais que chope vagabundo.

2 comentários:

Marcelo Marmelo Martelo disse...

Obrigado, foi um presente achar seu blog, me deliciei o domingao todo, é uma cantoria , uma poesia ,que escrita! , menina flor, bjs , marcelo

P. disse...

Amei encontrar o calunga nas minhas navegações insólitas!