quarta-feira, 16 de março de 2011

Sidnei Basile


Morreu um amigo. Nunca tinha morrido um amigo.
Eu o conheci em um CEO Summit, ele mediava habilmente um debate em que o velho Frias cochilava a cada cinco minutos
No fim, meu então namorado praticamente me empurrou para cima dele, dizendo que era importante eu me cercar de bons conselhos
De pastinha na mão com minhas poucas reportagens enfiadas nos plásticos, fui.
Sou estudante de jornalismo, gostaria de..."Pega meu cartão e marca uma reunião comigo", ele falou, e eu não podia acreditar.
Marquei.
Cheguei na editora de calça preta, terninho e rímel, com um discurso infantil do qual me envergonho profundamente hoje.
Ele passou os olhos nas minhas matérias, elogiou uma ou outra, e sentenciou:
"Garota, eu vejo que você já tem alguma experiência em revista. Se você quiser, eu até encaminho seu CV para o responsável por selecionar o pessoal daqui. Mas....acho que você deveria trabalhar em um jornal".
Saí de lá meio frustrada, mas fui procurar um jornal. Pastinha na mão, calça preta, terninho, rímel e discurso infantil.
Não é exagero dizer que, se não fosse pelo Sidnei, eu jamais teria procurado um jornal aos 19 anos.
Entrei no Estadão e começamos a trocar e-mails com frequência. Ele lia pacientemente meus longos desabafos, não subestimava minhas inquietações. No início do ano, deletei toda a minha caixa de entrada porque o Gmail estava quase 100% lotado. Como me arrependo.
Depois de meses conversando virtualmente, marcamos um jantar. Fomos comer espetinhos no Dita Cabrita. Nessa ocasião me contou que tinha herdado uma fazenda e estava aprendendo a cuidar de carneiros.
Fiquei encantada quando disse que misturava geleia de laranja à ração porque tinha notado que assim eles comiam mais e pareciam mais felizes. Lembro de ter escrito em um de meus blocos: "O Sidnei se preocupa com o prazer de seus carneiros".
Viramos amigos.
Ele sempre me dando conselhos que eu guardava na cabeceira da cama. Mas nunca foi cabotino ou exaltou seus feitos, nunca me aconselhava em tom professoral.
Levantava minha auto-estima: me chamou de cronista da cidade, me imaginou dirigindo um jornal latino-americano. Quando perguntei se ele achava que eu deveria morar fora, respondeu "para que sair do seu país, se aqui você é uma estrela em ascensão? Mas, se a vontade for urgente, você tem que ir".
Equilibrava com a agudeza de um malabarista e a serenidade dos sábios.
Uma vez, escreveu que às vezes tinha medo porque eu era muito veloz. Quase sempre me pedia calma.
Quis saber minha opinião sobre um texto em que contava sobre divinos pastéis que a avó fazia. Compartilhou comigo a felicidade em descobrir, na Itália, que não tinha sido o primeiro jornalista de sua família.
Jantamos no La Frontera nhoques absurdos com farofa de pão, os melhores, comemos mariscos no restaurante italiano do Benny Novak.
Ele e a mulher compareceram à uma noite de gala no Laboratório Paladar. Me alegrou conhecer sua Beth.
No nosso último encontro, que deve ter sido há cerca de 1 ano, lhe contei um caso, esperando que ele se revoltasse impetuosamente como eu, mas reagiu com cautela. Fiquei chateada por discordar, pela primeira vez, daquele que foi um grande mestre para mim. Depois disso, nunca mais tivemos conversas profundas. Apenas nos encontramos no corredor da editora, onde por fim acabei trabalhando, e ele me deu um grande abraço: "E aí, jornalista? Viajando muito?"
Gostava da sua voz, e tinha uma risada maravilhosa, incontida, italiana, ria com a boca, os olhos, as mãos.
Encontrei em um velho post das Meninas de Lá um texto que escrevi sobre ele.
"Sabe o que é a vida para mim? É uma grande poltrona cheia de gavetas. A gente abre uma, fecha outra, abre aquela primeira de novo, dá uma arrumada na bagunça, fecha."
Por coincidência, acabei de comprar minha primeira poltrona. E ele já não precisa mais de uma: pode se sentar nas nuvens.

4 comentários:

ABZK disse...

Lindo texto, obrigado por compartilhar essas histórias vividas com ele. Nos fazem lembrar de tantas outras, maravilhosas, que rechearam a sua vida.
Alexandre Basile, filho do Sidnei

Ana Maria, zootecnista da fazenda de Sidnei Basile disse...

No decorrer de sua história, me senti parte dela, pois tive a grande oportunidade de contracenar com Sidnei na fazenda herdada, pois administrei e cuidei de seus carneiros do início ao fim.

Lembro-me de nossas corridas de carro pelos vales da pequena fazenda, sempre lutando contra as benditas saúvas, como ele as chamava para protegermos o tão sonhado sansão do campo.

Adorava viagens gastronômicas no Vale do Paraíba, jantares com amigos na fazenda que foi cenário também do tão sonhado folder da distribuidora de carnes de cordeiros que conseguimos estabelecer a muito custo.

E muitas outras histórias que vivemos, que se for descreve-las resultaria em um livro.

Meu querido amigo Basile, hoje senti que foi uma parte de mim, pois saiba que você ficará pra sempre nas minhas mais lindas lembranças!!

meus sentimentos a Família Basile.

Cláudia disse...

Nana
Adorei o texro que escreveu no seu blog sobre o Sidney!
Apesar de não tê-lo connhecido pessoalmente, testemunhei muitas vezes suas conversas com ele e tenho que admitir que sempre admirei seu amigo, suas opiniões e conselhos....
bjo
Mami

nana tucci disse...

Puxa, Alexandre, Ana Maria, me sinto honrada com suas visitas.
Desejo a vocês muita força e serenidade.
E que sempre possamos compartilhar.
Um forte abraço