terça-feira, 25 de agosto de 2009

ana esmeralda


A escola de flamenco Ana Esmeralda parece um labirinto, um porão, tem cheiro de mofo, pinta de decadente. As salas são conjugadas, o que faz com que você tenha de interromper uma aula para poder chegar até a porta e ir embora. Numa das estantes, estavam 5 garrafas de vinho tinto vazias. "Qué es eso?", pergunta Ana Esmeralda, apontando as botellas. "É, nós tomamos na festa, no fim de semana", responde uma professora. As duas dão risada. Ana Esmeralda é espanhola e ficou no Brasil porque se apaixonou por um homem. Estrelou o filme Quem Matou Anabela, achei foto no arquivo do jornal. Os sapatos para alunos novatos estão maltratadinhos, gastos. Cabeça erguida, ombro pra baixo, olha a cabeça, olha a cabeça. "Não é pra virar o corpo, não precisa exagerar nos movimentos. É tudo muito contido". É pra pisar com força? Ela pensa um segundo e nega. "Força, não. Com firmeza, com jeito. Mas forte". No espelho, meus ombros até que pareceram bonitos. Engraçada a minha cara séria. Não pude deixar de lembrar do dia em que a Poppy, de Simplesmente Feliz, faz uma aula de flamenco e a professora pisa no chão e grita: "My space! Pisem e repitam comigo: my space!". A escola de flamenco Ana Esmeralda é provavelmente a mais pé sujo de São Paulo. Mas tem a alma galvanizadora que as lustrosas academias vilolimpicanas jamais irão entender. É pra lá que eu vou.

Ilustração: Brian M. Viveros, dica do 100 mililitros

4 comentários:

Anônimo disse...

shall we dance?

poesia potiguar disse...

Lindos texto, Nana!

poesia potiguar disse...

ato falho: lindos os seus textos!

Buru! disse...

Adorei! E... realmente, se fosse mais bonito, estragava! Flamenco está na alma!
Besos