segunda-feira, 12 de julho de 2010

O relojoeiro do Leblon


Antes de mais nada, meio encolhida, preciso dizer: não me lembro de seu nome.
Só sei que há 40 anos conserta relógios numa loja na rua General Artigas, no Leblon, quase esquina com a avenida Delfim Moreira. Ou seja: um pedaço cascudo do Rio de Janeiro (ainda mais depois que as Menininhas do Leblon roubaram a atenção da Garota de Ipanema).
Alguma coisa me chama e atravesso a rua para olhar a vitrine.
Entre velhos Rolex, Casios vintage e Nikes Huru lá está São João Batista. Nos fundos de uma lata de coca-cola, cercado de bandeirinhas coloridas e protegido por uma fogueira. Colada nas costas da lata, sua oração. Não dá tempo de perguntar de quem é aquilo, ele já chega e diz: “Gostou? Eu que fiz. Tem outros aqui na loja, vem”, aponta a prateleira.
Fico tonta de alegria, aqueles altarzinhos lado a lado, um mais lindo que o outro. “Olha esse, é o Cristo Redentor, e esse, Iemanjá”. Tem São Bento? É o meu santo, e nunca tem São Bento. Tinha.
Católico, um dia abriu uma lata de coca-cola com um estilete e botou a imagem de um santo dentro. O pessoal pirou, faz um pra mim? Fez, mas achou que podia fazer melhor: comprou cola quente e tinta.
São João vai com fogueira, Nossa Senhora, com flores, Santo Antônio leva aliança.
Quem quiser enfeita a estante, quem quiser usa a tampa da latinha e pendura o altar na parede.
“A Regina Casé uma vez veio e levou uns 10. Mas eu não gosto muito quando uma pessoa sai com um monte. Cada um é cada um, sabe? Eu me apego”.
Separo São João e São Bento, não tenho cacife, mas não dá. Nem pergunto se tem Santa Teresinha, céus, minha avó adoraria um desses.
Vou procurar um banco, o pagamento é em cash - os santos não fazem parte do acervo da loja, o dono cedeu um espaço ao funcionário porque não é um burocrata.
Pego o troco.
Chega um cliente e ele começa a trabalhar. Fico parada, ouvindo as marteladas precisas encaixarem os pinos no relógio e olhando os santos, hipnotizada como uma formiga diante de um pote de açúcar. “Ele é relojoeiro”, diz o chefe, meus olhos presos no homem. “Não existe mais ninguém que faça o que ele faz, do jeito que ele faz”.

Um comentário:

Cláudia disse...

Nana
Você é mestre em buscar talentos da pessoas.
Adorei!
Claudia