quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um Ulisses


Entre o inglês e a escola, havia o alemão. O que preenchia os 15 minutos do trajeto que as duas crianças faziam duas vezes por semana era uma velha fita em alemão. Iam o caminho todo com os cotovelos apoiados nos bancos da frente, divertindo-se com aquelas palavras que não conheciam e em especial com a seriedade com que aquele homem tratava de ouvir a fita. "Foi assim, sozinho, no carro, que aprendi a falar alemão", dizia o Ulisses.

Ulisses chegou sabe-se lá como até a casa da minha avó. Até então, ela nunca tinha cogitado ter um motorista, sempre fazia tudo a pé. Deve ter alguma relação com a festejada proliferação de netos (hoje quem trabalha com ela é o Nata, sujeito de um metro e meio de altura que sempre arruma um jeito de fazer um comentário positivo, seja qual for o assunto. é o que se pode chamar de uma pessoa que é naturalmente uma boa companhia).

Eu e meu irmão passávamos muito tempo com o Ulisses, ou então os minutos ao lado dele eram tão intensos que fiquei com essa eterna sensação. Nós morávamos numa casinha na mesma rua que a vovó ― casa que habita até hoje com assustadora frequencia meus sonhos ― então, se preciso, chamávamos por Ulisses.

Ele sabia falar alemão fluente e atribuía o fato ao acaso. Trabalhou durante muitos anos como motorista em um tribunal e não havia muito trabalho a fazer, passava o tempo todo meio à toa. Ulisses me ensinou a contar de 1 a 10 em alemão. Até hoje os sons desses números moram na minha cabeça e só não escrevo aqui porque tenho amor próprio: alguém que fala alemão gargalharia às minhas custas!

Nunca esquecia de dar presentes em aniversários e gostava muito do meu irmão, sem deixar de se mostrar atencioso e entusiasmado com todas as minhas mil perguntas. Tinha o rosto marcado por um acidente porque quando era bem menino entrou na frente de um caminhão, na estrada, para salvar a irmã. Os dois sobreviveram, mas o Ulisses teve sequelas. Piscava muito. Vejo com nitidez o Ulisses da minha memória piscando, com o olhar vago, pensando talvez em sérias questões. Estava sempre sereno, tranquilo até demais, de um jeito que incomoda uma criança.

Foi o Ulisses que me contou que existia algo chamado Astrologia. Que aquele quadradinho conhecido como Horóscopo publicado em jornais e revistas era um estudo sério, pessoas dedicavam suas vidas a isso. Contou-me tudo sobre meu signo e um dia apareceu com meu Mapa Astral. Ele leu pilhas de livros sobre Astrologia e baixou um programa de fazer mapas no computador (será que era isso? já existia?). O que é, Ulisses? "Quando você nasceu, todos os planetas estavam apontando para algum signo, e isso é tão importante quanto seu Sol, que é o seu signo".

Só fui entender o que significava aquela espécie de mandala multicolorida cheia de riscos apontando planetas, palavras esquisitas como "conjunção" e "quadratura" anos depois, embora tenha tentado, e muito, na época. Mais tarde, fui à uma astróloga, mas o mapa que ele fez pra mim está muito bem guardado.

Por onde andará Ulisses?

Foto: Penelope Umbrico

Um comentário:

Cláudia disse...

Nana
Quantas emocoes vivemos e sem duvida o Ulisses e agora o Nata sao pessoas importantes e especiais
Adorei!
Bjos
Mami