sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

meu nonno


“Eu quero ir, você marca para mim?”, me pediu. O nonno quer ir à astróloga que fez o mapa astral de meu pai. Não foi exatamente um espanto vindo de um homem com admirável capacidade de tirar as barbas de molho. Nascido em um vilarejo de Polignano al Mare, no salto da bota, filho de pais nada abastados, casou-se com uma gaúcha de nariz fino e olhos claros do Vêneto. Montou negócio próprio no Brás com os irmãos, um armazém com alho e pipoca. Foi parar no Morumbi em uma casa grande, cheia de tatus-bola no quintal. De manhã, costumava sintonizar o rádio em uma estação com músicas instrumentais enquanto fazia sua caminhada pelo jardim. Nonno nunca precisou de um castelo, fundou seus próprios reinos. Macias polpetas antes do almoço, massa no almoço, sem queijo (sim, nonno é um italiano que não gosta de queijos). É um defensor do amor. Amou a mesma mulher por 60 anos e jamais a criticou. Quando ela morreu, ele se apaixonou de novo e casou-se. Aos 85 anos. Com a irmã mais nova da nonna. Mudou-se para Curitiba, onde ela vivia. Deixou a casa do Morumbi sem chorumelas. Nunca vi o nonno se lamentar. Nem com as intrigas familiares, nem com a ausência de alguns queridos. Quando vinha para São Paulo, contava com olhos fulgentes como a cidade tinha bons restaurantes, as pernocas sempre cruzadas e o familiar par de óculos quadrados. Talvez a melhor de suas qualidades seja a nobreza de não fazer julgamentos. Nonno, mudei de emprego. Nonno, mudei de namorado. Ele sorri como se acariciasse seu cabelo e acha tudo ótimo. Meu avô tem uma presença tão forte que não consigo me considerar uma italiana grã-fina do Vêneto nem uma portuguesa intelectual de Cintra. Eu vim de um beco de Polignano al Mare. Na última semana, comentei com ele que deveria provar takoyaki, bolinho de polvo que só um velho japonês da Liberdade sabe fazer. Mudamos de assunto e, antes que eu beijasse sua testa sardenta, me fez um pedido, o segundo até hoje. “Djôva, eu queria experimentar esse bolinho. Você traz para mim, de surpresa?”. Amanhã o nonno completa 91 anos, e já encomendei os bolinhos (mas não conte a ele).

Foto: Barche di Pescatori de Polignano al Mare, do flickr de Riccio.

9 comentários:

Giu disse...

Dei uma choradinha (mas não conte a ninguém. hihihi). Te amo amiga.

papai disse...

Maravilhoso, minha filha. Amo muito você. Super beijão

célia musilli disse...

ana, voltei pra ver meus girassóis aqui e encontrei este texto lindo, sensível, sincero...adorei o nonno e sua maneira de descrevê-lo. E dê meus parabéns a ele...depis dos bolinhos...rss. Um beijo!!!

célia musilli disse...

Perdoe os errinhos aí embaixo...é a pressa! Penso mais rápido do que digito.Então, ana é Nana e depis é depois...rss. BJ!

Ana Elisa Faria disse...

lindíssimo, naneto!

Tata disse...

ô Gi!!
... que homem mais lindo!!!
Que neta mais amorosa!!!

delicia de texto!
beijo grande de saudade!

Anônimo disse...

Muito bonito nã...
me fez reelembrar os velhos tempos..
te amo irmã, beijoss

el pájaro que come piedra disse...

e, no fundo, io acho che questo nonno è santista, anche io...

manoela quintas disse...

❤❤❤❤